Por que falo de nós assim tão separados e distantes? Ao ver quase diariamente na TV gente conhecida ou não, escrachada, tratada ao último desdém. Jamais vi, e ainda estamos longe de presenciar alguém, repórter, estudioso ou gente comum, indagar, ao menos indagar, o que seria a pergunta primeira, que mundo ou história de vida leva ou levou um homem ou mulher a chegar e estar a tal ponto de vida.

Por mim, interno ainda e longe, sei que desconhecemos nossa infância e juventude. Os institutos de pesquisa e amostragem, manipulados, pegam e propagandeiam uma vitrine aceitável. Existe um histórico e intenso analfabetismo em nós mesmos. A segregação muralhante da vida impera. Este analfabetismo, entenda-se desconhecimento, tem muito a ver com o escolar. Não só dos alunos, mas antes, bem antes, dos próprios professores que nos ensinam. Que por lógica, se existe professor bem formado, este lutará a todo custo por excelentes aprendizes. A referência máxima que conheço é a escola de Platão. Que há tantos séculos os inteligentes buscam. Mas voltemos a nós. Muita coisa das escolas públicas lá de fora têm a ver com as celas daqui; a cadeia. A começar pelas separações em quantidade, logo a seguir os entupimentos; salas e celas abarrotadas. Antes porém tudo vai por um número e vaga. Os gestores escolares entendem pouco de gente, de criança, inclusive muitos deles mesmos. A relação do guarda com o interno é marcadamente inferiorizante. Lá fora, vivenciamos a superioridade das professoras e professores. Às vezes quando muito ou dito melhor, uma relação adocicada de bondade estabelecida. As coisas sempre acontecem, evitando o perigo de num momento querermos nos conhecer. Antes porque conhecer é um continuum. Desculpando aqui, na visão de preso, certa palavra latina. Mas não esqueçamos que o português vem dela, é ela. O que eu quero dizer e digo, que entre o nosso intenso analfabetismo escolar e a falta de conhecimento e consciência de nós mesmos, do brasileiro por ele, existe alto parentesco. Isto, se tudo não for a mesma coisa. Um filósofo nos explicaria. O aumento das escolas veio com o das cadeias. Há algo de errado. Ou será o certo? Volto novamente ao filósofo.

Mas pensando um pouco mais, não precisaríamos tanto de um filósofo para nos dizer, a talvez então nos fazer começar a desenrolar este nosso grande nó. Nossas mortes já existem antes de acontecer. Morrer também é continuar vivendo, só que de um certo modo. Antes das tragédias há todo um mundo favorável, fertilizante. Volto a dizer, existe o antes de tudo, que nós mesmos produzimos; as mídias, o poder público e por aí. Nossa vida só quer viver, tem algo que não permite. A tarde inteira do Sandro no ônibus 174 mais a tragédia da Tasso Fragoso, por consciência e verdade morrerão comigo.

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