Eu vinha da faculdade cheio dos clássicos e das histórias dos ricos. Germinal e Crime e Castigo me abalaram profundamente. Sacudiram os modos de ver das minhas retinas. Nas grades encontrei uma profusão de corpos e gentes. Aquilo assim não tinha história, pois eu nunca ouvira um nada que fosse lá fora. Um emaranhado rico e denso de origens e maquinações. Um espremido de Brasil estava ali, de cores, tamanhos, suores e odores.

Todos embalados num achatado de mesma marca:cadeia. Lá dentro observando bem, descobrimos que eles não são iguais, melhor, todos diferentes. Potências e capacidades perdidas, emolduradas, relegadas a um sem sabor, ou a um odor do pior, do imprestável, do fim.

Por mais que houvera lido meus olhos não sabiam daquilo. De como se vive, se come e se dorme numa cadeia. Então me pus ao trabalho incessante de rascunhar e de escrever. Até me conseguir conduzir por aquela estrada, enlameada e escaldante, de um início de outros começos.

Eu mergulhava nos muros, feito uns poços de gentes. No primeiro, perigoso e fundo que era o III, me deixei levar pelas correntezas. Pois necessitava aprender e suportar, descobrir o risco e a proteção daquelas águas temerosas. Passei por dias de quase afogamentos fatais. Mãos amigas do coletivo penitenciário me sustinham, por vezes me puxaram do fundo. Traumas diários, pelo inesperado dos acontecimentos, não me deixavam dormir. Mas no dia seguinte eu mergulhava no III, meus amigos do crime já me esperavam. Por lá, mãos de fora do não-crime me empurravam ao fundo, querendo matar. O mundo estava controverso.

Aos dias e aos anos, cada casa cadeiante virou-me um poço diferente no grande lago de Gericinó. Cada qual com suas larguras e funduras.

Na labuta dos muros comecei a fraquejar. A alma extenuada reclamava o cansaço, os pulmões não suportavam mais. Saí já em delírio de dor. Do patrão público eu bem que poderia morrer. Porém escapei com um resto de fôlego, de vida.

Dois anos se passaram, que necessitei de refúgio. Até que as coisas vistas, sentidas, participadas, começaram a fluir. E eu pus-me aos poucos em querer me escrever. Sem tanto mais traumas de definhar, de sumir e de morrer. Assim me ponho nestas linhas agora, nestes contos, que antes eu não sabia que os tinha, e que num momento se retornaram, e estão aqui, na busca inesgotável de um papel.

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