Após anos de convivência e grandes periculosidades, a cadeia me ensinou o drama e até a tragédia, do depois da saída de cada um de nós. De como chegar no mundo lá fora, conseguir e poder ficar. Pois mais importante do que sair, porque isto todos e qualquer um faz, permanecer na liberdade. Com as garras de nunca mais voltar.

Então passamos a conversar e refletir. Pela minha modesta opinião, jogava-lhes o mais que pudesse, em alcançando a liberdade, de que se inserissem na família. Porém família não significa só um grupo consanguíneo, mas antes quem nos aceita como membro seu. Sem isto, o aprendizado da vida me ensinou, temos pouca ou quase nenhuma chance. Quem sai, depois de anos ou de qualquer tempo na grade, sai desnorteado, sem rumo mesmo, tentando encontrar um ponto de fixação social, de vida, sem ter ainda horizonte firmado. “O que fazer?” “Aonde ir?” São perguntas da grande maioria, isto é, quase a totalidade. Diante da cancela do complexo na saída, raras pessoas aguardam um ente querido seu, vindo em liberdade pela estrada. Alguns olhos, de tão aflitos, fazem a vista se enganar, como um amante em ansiosa espera. Daqui de fora, barreiras enormes se contrapõem a estes gestos, de reencontros, de amor e comunhão.

Voltemos para dentro das grades e do depois da saída. Reinserção quase sempre é demorada, pois o ex-interno fica dias sem lugar, sem tempo. E requer paciência,doses altas de tolerância, e esta tão ausente em nosso meio, no sagrado e no profano. Assim, conversando, nos preparávamos pelo menos um pouco para os enfrentamentos. Saindo, no começo tudo são flores. Nalguns grupos familiares, após um início de aceitação, as coisas para o liberto começam logo a recrudescer. “E o trabalho?” “O que você vai fazer da sua vida?” São perguntas não só ditas, mas presentes nos olhares próximos. A noção e o sentimento de lugar vão se apertando, sumindo. O movimento perde cada vez mais espaço. Dependendo, uma casa pode causar mais mal-estar, sufocamento, do que uma cela maldita. De onde se veio pouco se retorna, isto é, do nosso próprio lar. A família do preso tão criminalizada quanto ele, às vezes compõe o fechamento de possíveis retornos e aceitação.

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