Em casa ensinavam-nos, nós ainda pequenos, que não pode se misturar com gente ruim. E gente ruim, por natureza social são os mais pobres. Mesmo que entre eles se veja, se encontre, uma ou outra alma boa. Pois a bondade, sem que se precise saber e muito menos questionar, está umbilicalmente relacionada aos abastados. E quando encontramos um deles, dos ricos, mesquinho, é simplesmente um avaro. Coisa que não vai piorar o mundo. No lar, aprendíamos assim o lugar da maldade, onde normalmente ela mora, fecunda e nasce.

Não aceite nada que venha deles, alertava-nos a professora “sábia” e a mais antiga, em nossa chegada de professores ao conjunto de cadeias. Mesmo a coisa mais inofensiva, como um pedaço de bolo, pode conter veneno; ou só mesmo para te testar, para saber se você é receptivo, possível cúmplice de um interno. De um pedaço de bolo se chega facilmente a uma droga, pela ação de um aliciamento traiçoeiro, balizava-nos a “mestra.” Neste contexto prisional, por mais que nossa boca salivasse, nunca poderíamos e não aceitávamos pedaço de cocada vindo das celas, do meio suspeito e antecipadamente enganador. Que acatar o compartilhamento de alimento de preso, já é cumpliciar com o crime.

No seu jeito e objetivo pedagógicos, a “instruída professora” nos contava sobre envenenamentos vindos de fora, pelas mãos das visitas, de preso matando preso inimigo, até de outra cadeia. Alguns jornais veicularam sobre um caso assim. Então, por precaução, uma pastilha de hortelã vinda de mãos bandidas tem que ser recusada.

Era necessário, continuava a professora de cadeia, e recomendável, que nenhum de nós ficasse sozinho numa sala qualquer, mesmo que na de aula, com um ou dois internos. Pois um caso, mesmo que falso, poderia surgir dali, e não se poder provar depois o contrário, isto é, a verdade dos fatos. Neste aspecto, eu soube de várias histórias mirabolantes, com ares de excesso de cores e de acrescentos afixados adiante pelo imaginário. Por lá, no complexo prisional, soltam e sobem balões de notícias à mão cheia, para intensificar e reafirmar nossos medos e as separações. No discurso de que eles sejam sempre eles, e nós sempre nós.

Um pouquinho de mistura informal até acontece, mas por trás dela, firme, a separação existe e nos mantém acorrentados. E que, quando preciso, num momento de avanço por parte do preso, evocamos imediatamente a proibição, o perigo e a sujeição às normas de segurança. Os vindos de fora são sempre os bons, os inocentes; os de dentro os culpados, os ruins. Esta a máxima secular estabelecida, o grande muro por dentro da muralha.

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