As imagens me faziam mal. O título sim, me atraíra antes: “Cartas Para Um Ladrão de Livros”; com dois feitiços, livro e ladrão. No catálogo do festival, assim eu não podia perdê-lo.

“Sou gay tá professor”, disse-me na ordem da facção logo no início, naquela manhã quase sem aulas na Muniz Sodré. Não houve avisos nem apresentar, chegou e se pôs. O coletivo amigo já lhe dissera eu. A conversinha fluindo. No seio, ele que só falava, qual depoimento criminal; e era. No fundo, profunda revolta de réu no tribunal; em que a justiça passa, mas só com lacunas. Assim então eu o ouvia. Começou com pequenas revistas antigas mas de grande valor. Olhou na biblioteca pública e elas estavam lá, esquecidas, como se a esperá-lo. Pegou-as e saiu, a segurança não se importou, nem viu. Transformadas logo em dinheiro seguiu em frente e continuou. Cresceu. Já tinha então comércio pronto à espera no negócio dos livros. Assim, só trabalhar e passar adiante, com dinheiro vivo na volta. O mundo das artes dando-lhe muitos lucros. O veio do descaso público lhe facilitava agir, não havia muito ligar. Seu tino periculoso foi descobrir esse veio, e chegar por ele ao grande filão. E o negócio então se avolumou, ele já garimpador de quem tudo receptava. Sócios. Na ordem prisões e processos. Histórias. Porém o que não concordava, me contava o interno ali, era de quem negociava com ele, ninguém fora preso arrolado em penais; mesmo que ditos e identificados porque enumerados. Só ele puxando nas grades e pronto.

Falou-me da luta pelo bem-estar da mãe, por um teto que lhe desse abrigo.

Na poltrona do Odeon meu desarranjo de alma por dentro. Aos poucos os sentidos de que já vira tal filme, crescendo. Mas a falta de encaixe do onde ou em quê, desconsertava. Obrigado agora a assistir, fui vendo a história, deixando o olho receber. Despertei na paisagem visual. A vida na tela se apresentou sem aviso, no contínuo do desenrolar. Fez da Cinelândia Gericinó, na grade da Muniz Sodré. O documentado preso já conversara comigo. Clareou-me no cinema coisas que não me dissera em cadeia. Porém o básico da sua revolta, de incluir também seus ricos compradores nos processos mas em vão, veio inteiro nas duas versões, na tela e no real. Nisto eu já era do filme, alguém que reencontrava um parceiro de cadeia na liberdade, só que em pura imagem.

Perto do fim, o depoimento hipócrita do delegado federal, fingindo revolta pelo impedido social de prender os sócios de Laéssio, deu-me nojos de alma na poltrona.

Logo após a sessão houve debate com os diretores. Nos pomos assim a conhecer-nos. Eu professor já ouvidor da história, e eles, os realizadores. Que disseram para nós a tentativa impedida, de mostrar nos finais da fita os nomes dos compradores do ladrão de livros, a parte patrão do negócio. Receberam pela tentativa, disseram-nos os dois diretores, ameaças de processos e mais. Ou seja, a porta que não se pode abrir; só falsamente como agora, nos dias que escrevemos.

Notas do autor:

O documentário “Cartas Para Um Ladrão De Livros”, foi exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro de 2017. Tendo como protagonista Laéssio de Oliveira, o “ladrão de livros”.

Recentemente, em 04/12/18, o jornal O Globo publicou em destaque no segundo caderno, um pouco da história de Laéssio.

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