Num canto de muralha interna entre cadeias, em nosso caminho obrigatório de entrada e saída já próximo da portaria, passávamos em frente do castigo, lugar pior do que o costumeiro das celas. Era, e certamente ainda é, pequena construção de laje grudada à muralha e num lugar de sol inclemente. Que talvez para economizar gastos, usavam o calor da natureza para castigar ainda mais. Pequena grade de visualização dava para o espaço externo. Geralmente os presos castigados se grudavam nela, num jeito de ver um pouco do mundo. Isto, principalmente quando passávamos nós professores e as professoras. Que ao ver-nos, as esperanças de liberdade lhes cresciam.

Por uma tarde ensolarada na passagem de saída, alguém do castigo gritou meu nome. Como apesar das muralhas as cadeias se interligam, olhei na direção do chamado surpreso, quem seria. Sem preâmbulos o preso desconhecido transmitiu-me respeitoso, desculpas de outro preso em cadeia distante. “Pedro* da Frei Caneca mandou lhe dizer que tá tudo resolvido tá?” Respondi sem nada pensar num “tranquilo” repetido, e em rápido ok de mão pelo polegar afirmativo. Dois dias depois a mesma fala do castigo em confirmação, num alto respeito ou medo. Mais efusivo e consciente reafirmei meu aceite e compreensão. Mas eu não conhecia Pedro, e isso me pôs num segredo.

À história agora, temos um anterior. No passe e repasse do livro nosso “Outras Cadeias a Cadeia”, colocávamos ao costume e carinho nosso autógrafo, este acompanhado do agradecimento do autor. Um volume autografado foi para uma psicóloga amiga e querida nossa. Certo por um comentário de outro alguém ou referência dela mesma, a história do “Outras Cadeias” chegou aos ouvidos do seu namorado, este um preso do então Complexo Penitenciário da Frei Caneca. Pedido por ele o livro emprestado, nossa amiga psicóloga arrancou a página da dedicatória autografada. Escrevo muito fundo, quase às vezes perfurando a folha com a ponta da caneta. Este fundo já sendo um dado psíquico. Retornemos. Emprestado o livro, a periculosidade amorosa se indagou sozinha da folha arrancada, o porquê daquilo. Assim, num sistema inteligente que desconheço, ele fez nossa letra bem legível aparecer nos sulcos da página seguinte, a que estivera sob o peso da escrita dedicatória. Tudo se lhe mostrou aos olhos. Aquela mensagem o ciúme lhe insuflou. Podia ser e era uma mensagem de amor. Creio que se bateu em ódio por paredes e grades. Noites insones de puro desassossego infernal de macho. Ele ali, e ela toda prazerosa com outro lá fora. Havia então que desenrolar com esse autor. Bolou incontido convite raivoso de me conhecer e o enviou, vindo pela própria boca da namorada assustada. Ouvido o clamor bandido dissemos que sim, que iríamos lá na tal cadeia desenrolar. O raciocínio alertou-me que avisasse os meus amigos do crime. Aonde iríamos e o que faríamos. Precaução bandida e sincera por mim. Houve uns dias de total silêncio, até aquelas tardes da mensagem de paz do amante arrependido. Logo depois a leitora e namorada se houve comigo em perdão. E tudo assim se foi. Só que ficando eterna na alma de quem os escreve, uma ação estrangeira secreta mas entendida, de que alguém poderoso e amigo interferiu. Pondo-me a salvo e protegido de qualquer suspeita odiosa de um amante aprisionado. E livre talvez de um crime passional.

Nota do autor: Pedro, nome fictício na crônica.

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