Descomunal seguro de vida eram meus grandes amigos do crime. Esta a lição que mais eu soube aprender e usufruir para sair ileso. Nas cadeias há um meio caos desestabilizador. Os sinais da verdade em contrários e até ofuscantes. Vamos ao caso. Na portaria, o guarda mesmo que de longe já vinha despejando ódios. Todos sentimos um encolher de corpo; as duas professoras, eu, e até o outro guarda das chaves. O homem chegava mortal. Olhos de puro terror. Exigiu raivoso carteirinha nossa de professores de cadeia, como se nunca nos conhecesse, mesmo com toda identificação visual de trabalho anterior já longa. Era só uma deixa. E pôs-se a assustar as professoras. Num bote de onça virou-se agressivo, e disse que tão logo eu estaria morto com a boca em formigas. Esbocei pequena reação de espanto. As professoras, mais assustadas ainda, arrastaram-me amáveis para fora da cadeia. E o guarda junto, ameaçador. Saímos de carro porque eu na carona também fui. A cobra raivosa por lá mesmo ficou.

Logo depois, sozinho ainda na rua a voltar para casa, levemente atônito eu buscava uma linha. Aquilo de alma que temos do campo da intuição. O atônito não abrandava. Sinais leves de socorro apareciam por dentro, sem que eu lhes buscasse de imediato o auxílio. Eram por enquanto só um leve conforto. Caso precisasse eles seriam. Já nos hábitos comuns de casa silencioso em conversa interna, eu ia andando. A estrada do dia não parecia tão perigosa, mas que me alertasse feito em confronto mortal, dizia-me meu aparato de prevenção. Talvez que uma certa tranquilidade crescesse, por uma resolução já tomada. Medo do dia seguinte não me veio. E o mundo girava. A sentença da morte por dentro, caminhando. As relações com meus amigos do crime em alto apreço, de vida ou de morte. Incontinente o telefone tocou e eu atendi. O guarda ameaçador por voz suave se retratava. Sem choque de alívio pois já estava resolvido anterior em mim, entrei com palavras também de paz.

Desligado o telefone, refleti por dentro a assentar-me as águas da alma. O que acontecera. O discurso da fama viera ao meu socorro. A este fim foi o que a reflexão me pôs. Amigos perigosos do professor, do crime, saberiam, pondo a vida do guarda da morte na linha certeira de tiro. A lógica do discurso na fofoca do medo nos salvara, de um desdobre trágico iminente.

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