“Olha professor, teremos todos os cuidados. Em caso de rebelião com reféns da escola, as primeiras prioridades serão, na ordem, das professoras e logo a seguir dos professores. Isto principalmente em relação à proteção, melhores espaços, água e alimentação. Estendido também ao corpo social, que vem trabalhar no cárcere com as nossas vidas”. Eu não tinha autoridade de ouvidor, como uma condição de prestação de contas antecipada. Ainda, porque a voz do preso me veio mais do que como um arauto coletivo, uma ordem estabelecida das coisas. Ouvi tudo e me calei, só assentindo com os olhos e a cabeça. Passou-se tempos e tempos, e aquilo de aviso me matutava, até diluir-se de vez na mistura do caldeirão da vida.

Chegando pela manhã à cancela da entrada principal, o tumulto de carros e gentes nos acessos alertava-nos. No ar das vozes a notícia em primeira mão: Bangu III estava tomada pelos internos, a refrega das muralhas. Guardas, armas, tiros, cachorros de ataque e ensaios de polícias em invasão. No espetáculo externo, do mais medroso ao mais beligerante, todos se queriam heróis. As câmeras e os registros de mídias estavam ali. E os bandidos tinham que perder, a repressão dizia. Um guarda tombou em resistência de luta. Instantes depois da tomada houve um gesto de vida. Constatada a gravidez da professora-refém, esta foi logo liberada. No meio do sufoco do caos eclodira a sensatez. Mas isto, o gesto dos rebelados para com a professora grávida, do lado de fora no mundo do legal nem foi mencionado. Visto sim, um algo ou ação totalmente sem valor. Pois que as forças do Estado, do “Bem”, só visavam dominar, reprimir. E o que é a vida diante disso.

Três dias depois tudo acabou, a cadeia tomada foi entregue à segurança pública. Porém, aonde neles bandidos e polícia terminou, em quem os escreve se renasceu ou continuou. O conceito-verdade de que o Estado protege, já tão ralo em mim, se diluiu de vez. A ficha final caiu. E digo a seguir por quê. Com a total ausência e descaso da nossa Secretaria de Educação aos reféns professores, a primeira voz de professora ao sair, foi dizer-me que o coletivo penitenciário cumprira o falado pelas prioridades humanas na rebelião. Havendo até, em necessidade de momento nos tiros, muralha de corpos de presos a proteger as mulheres.

Relembro, escrevendo agora e quinze anos depois, a rebelião na antiga Penitenciária Dr. Serrano Neves Bangu III em Gericinó. A intenção aqui é só dizer para nós o principal. Em tudo, o que me fez lembrá-la, a rebelião, foi uma inversão de dados de realidade. Melhor, um ver além do universo mentiroso ideológico estabelecido. Assim, no desenrolar da mencionada rebelião, enquanto pelo lado de fora, o da lei, só partiam tiros, ações e estratégias de dominação e repressão, sem ao menos tênue fingimento de tez humana; já do lado de dentro, o dos internos e delinquentes bandidos, mesmo com toda guerra e o sítio total que eles enfrentavam, ordens e ações de proteção a vidas humanas se pautavam, como comprovadamente aconteceu e acima relatado. Pondo-nos agora em olhares contrários. De onde antes esperávamos proteção, hoje e sempre ficarmos o mais que pudermos em desconfios e protegidos dele, o Estado-República e sua “Democracia”.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *