Nos empurram uma versão semântica descomunhante, cruel.

Nas manhãs das visitas o mundo prisional aprisionava bem mais. Quase sempre ao chegar à cancela, eu mesmo tinha dúvidas se entraria, se conseguiria passar por tantas barreiras e verificações. Guardas fortes e musculosos davam ordens, conduziam visitas qual bando de perigosas suspeitas. Talvez na índole e percepção, de que bastaria um punhado de maconha entrar numa carceragem para libertar todo mundo, ou mudar a terra da nossa miséria. A verificação uma a uma de quem passava pela cancela, geralmente mulheres, mesmo com toda automação de roletas e códigos demorava, formando eterno suplício quase final. Entrei, com certeza aliviadas pensavam muitas. Acontecia ações de operações bélicas, com guardas conduzindo perigosas inimigas, as visitas. Até meu corpo, de funcionário professor, no meio daquilo tudo de alto controle e repressão, encolhia-me todo, mesmo aparentando alguma soltura. Certos guardas pensavam-me, tinham-me e tratavam-me forte inimigo suspeito. O Espírito de Visita estava também comigo. Muitos presos já eram meus parentais. Lá fora da cancela, na grande fila da entrada e da espera, ares das comunidades formavam gestos de todos os tons e desejos, mas assentados num fundo comum, todas são visitas. E assim a palavra visita adquiria um outro sentido, ainda não dicionarizado, de condenação criminosa. Pondo em nossa Gramática os fossos, as marcas da separação, as cadeias.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *