Numa condução qualquer eu passava diante daqueles altos muros, antes de efetivamente entrar pela cancela em Gericinó. Sempre sem alguém saindo ou entrando, num ar desértico ou de grande abandono, a entrada deixava-me sempre intrigado, como um escondido segredo a descobrir. Sabia ser ali, pelos dizeres da grande placa no alto, cadeia de menores infratores. Ditos por todos muito perigosos e imprevisíveis, assim as vozes das professoras me cantavam. O nome de santo na placa identificando a casa, mais o socioeducativo especificador, me intrigavam por dentro, como um sempre a mascarar, arranhando a pele da alma. E meus olhos precisavam ver.

A oportunidade chegou e fui trabalhar no Santo Expedito*, em regime de extras. Foi como entrar numa nova casa, desconhecida e desejada. Estranheza inicial se deu à primeira aula, ao chegar na escola por dentro dos muros e não encontrar alunos nem sinal deles. A espera tornou-se angustiante e perguntei por quê. Qual a causa das demoras. Hoje são os do Terceiro Comando*, informou a professora, e o ritual da revista da guarda é demorado; revistam apalpando um por um no sair das celas, arrematou. Apareceu uma fila de rapazes por dentro das altas telas e junto dos pavilhões. Como seriam, eu me perguntava. Chegaram à escola limpos, de mãos abanando sem cadernos, que nem pareciam alunos. Havia um medo no ar, como se um deles pudesse nos degolar sem aviso. Acostumado às liberdades com os adultos presos, aquela enorme barreira de cuidados causava-me desconfortos, sem saber inicial como agir. Assim, arrumados em espaços improvisados ditos salas de aula, cada um recebeu lápis, borracha, e uma única folha sem pauta para escrever. A aridez me desconcertava, sem ver aparatos educativos às mãos, visíveis, que nos guiassem.

Houve os retraimentos iniciais de quem ainda não se conhece, não se sabe. Alguns chegaram contando histórias fantasiosas de várias degolas e estupendos poderes. E os primeiros dias logo se foram, sem mortes ou fugas, como tanto apregoavam.

Na primeira aula com os do Vermelho*, por medos e precaução disse-lhes das minhas fortes amizades no coletivo do III*, também Vermelho. Aquilo podia me ajudar, pondo-me em alguma segurança, o que efetivamente aconteceu. Acabada a aula, solicitei a devolução dos materiais escolares, pois que os alunos não podiam voltar com eles para suas celas, ordens escolares e da segurança. Mas então, diante do meu pedido de devolução ninguém se mexeu, talvez a testar-me coragens. Cortês, solicitei uma segunda vez esperando. Ao que mão educada de delinquente sinalizou, pediu-me licença logo concedida, e recolheu da turma um a um o material escolar reclamado, sem que nem um objetasse, num princípio de total assentimento. A ordem coletiva então se fez.

Certa manhã ao chegar nos menores descobri a América. Professor atrasado, grupo de jovens da aula daquele dia me esperava, alguns ansiosos, por trás das grossas telas. Olhos desejantes fitavam o portão de entrada em ansiosa espera. O Abel chegou, disse um aos demais em alívio. O tom do jovem em arauto sinalizou-me, não esperavam professor, mas um humano igual a eles que os guiasse, os compreendesse. Pois que empurrados pelo nascimento da vida de todos os dias, não tinham aonde crescer, aonde ir; e só agora já ali, naqueles muros horrendos.

A vida de trabalho logo me tirou de lá. Deixei os menores. Porém, a ironia dos dois nomes se fortificou: o socioeducativo em algo tão aprisionante, junto com nome de santo, num hipócrita religioso de céu.

Notas do autor:

Facção Terceiro Comando e Facção Comando Vermelho.

Santo Expedito, unidade de menores infratores em Bangu, Rio de Janeiro.

III, Bangu III, Penitenciária Dr. Serrano Neves, também em Bangu, Rio de Janeiro.

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