O mundo não é só este significado mundo.

A VK* sob a mira de fuzis inimigos. Homens armados aos morros todos os dias; e tentando descer, tomá-la. O grupo virou estrela nas mídias por aqueles dias. As polícias olhavam meio que de longe, fingindo algum controle. Lugar de passagem obrigatória diária às cadeias de Gericinó, percebíamos o jogo do poder: deixar se matarem entre si as forças inimigas do Estado, nesse caso os fora-da-lei. Dentro das grades eu mexia com os meus amigos do Vermelho: “vão deixar tomar a Vila?” Ou, em comentário com certa leveza provocante: “sabe que não podemos perder, a entrada do Complexo Penitenciário tem que ser sempre nossa, pela importância estratégica.” Ao que parceiro de grade respondia meio que pressionado: “eles sabem o que os espera, por isso nunca descem, só ameaçam.”

A cabeça torcia para que aquilo tudo de guerra entre as facções logo acabasse. Os ataques do Terceiro Comando ao Vermelho, conduzidos pelo Matemático,* causavam medos e preocupações aos moradores nas linhas dos tiros. O inferno da guerra durou sofríveis dias, com a morte acontecendo neles. Por trás e no jogo perverso de mundo e de poder, as mãos do Estado talvez que batessem palmas. E esta a seguir era a nossa conclusão de horizonte: o poder a fazer e a deixar sempre se bater, se matar, quem ele quer eternos vencidos, subjugados. Injetando em todos, bandidos e trabalhadores, a dose eficaz do mesmo eterno veneno: a servidão que divide e condiciona.

Notas do autor: VK, Vila Kennedy, conjunto habitacional em Bangu, Rio de Janeiro.

Matemático, eminente bandido do Terceiro Comando. Tendo sido antes também do Comando Vermelho; hoje pessoa já falecida. No imaginário do povo, até de gente fora do crime, Matemático deixou imagem.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *