Num tempo de livro pronto, 2003/4, recém-saído da gráfica,  perguntava-me por dentro quem leria aquelas pouco mais de oitenta páginas. Antes pelo tema posto: penitenciários. Numa história de inicial abordagem sobre prisões, presos e as suas, como também as nossas, vivências. Em primeira resposta vinha-me no meu silêncio, que somente os internos do Comando Vermelho leriam o livro. Um fato natural meu algemava-me, com mil exemplares já impressos em casa, eu não tinha, como não tenho, nenhuma queda ou dom para vendas. Como então vendê-los. As coisas aos poucos começaram a fluir, talvez com a ação do próprio objeto livro. Algumas professoras amigas, que sabiam da feitura e impressão compravam e iniciaram a ler. E com isso passaram também a divulgar e a vendê-lo. Logo uma professora comunicou-me muito revoltada, que o volume dela havia sido roubado dentro da sua própria casa. Fato que animou-me com uma forte dose de acerto. Pois só se rouba aquilo que produz desejo. Uma grande prova foi vencida pelo próprio livro sem minha ação direta. Alguém inimiga, porque uma mulher, antes havia buscado atrapalhar-me, com o fim de impedir, na elaboração da história. Pronto o livro, ela, a inimiga, leu, elogiou e até vendeu algum.

Mas a pergunta continuava, embora um pouco mais diluída. A quem interessaria o livro além do Vermelho. Nisso um e outro guarda começaram a pedir-me exemplares em cortesia. O que não me neguei, que o mais importante para todo texto é a sua leitura, e o meu não era diferente. Assim, houve a transposição de uma grande muralha, a história não era mais só de bandidos para bandidos, de crime para crime. O que eu escrevi ensinava-me. Porém outras surpresas mais fortes viriam. Antes também porque em minhas fragilidades, receios e medos apareciam. Trabalhando em várias cadeias eu tinha contato direto com outras facções, inimigas do Vermelho. Portanto, eu poderia ser colocado e visto como tal, isto é, um inimigo. Pois que, vale dizer aqui, o livro publicado não só dizia respeito ao Comando Vermelho, como ainda prazerosamente originou-se dentro do III, unidade prisional capital da facção à época, não sei se ainda hoje. Uma outra surpresa veio como um arauto na guerra. Professora muito amiga, que lera o livro, comentou-o em suas turmas do Terceiro Comando. Lá, disse-me ela, houve silêncios e manifestações de interesse e um grande e talvez único forte apego. Pois que a professora amiga presenteou um seu aluno com um exemplar de “Outras Cadeias a Cadeia”.  Mas bem antes porque anterior ao que acabo de relatar, deu-se que um professor de literatura matou dois coelhos com uma cajadada só. Trabalhando comigo numa unidade prisional semiaberta do Terceiro Comando, ele, o professor de literatura, planejou e executou uma grande aula com suas turmas juntas, tendo como único objeto de estudo nosso livro.  À distância, porque em outra sala, eu sentia e ouvia o interesse e a participação dos alunos. Num momento de mais efusão de voz, talvez até para eu ouvir, o mestre de literatura afirmou em interpretação textual, que o autor mostrava que tinha muito ainda a dizer. Depois, certamente pela aula e difusão do livro nesta mesma semiaberta, outro fato me aguardava. Numa certa manhã, um meu aluno disse-me que alguém do coletivo deles, Terceiro Comando, viria ver-me e elogiar-me pela autoria do livro. A obra feita deixara definitivamente de pertencer ao artista. Assim, uma hora depois fui avisado de que alguém chamava-me próximo à escola. Era o mencionado interno que, em modos educados porém aos brados com “Outras Cadeias” na mão em pose de guerra, disse-me a uma certa distância que, embora mesmo falando do inimigo, o Comando Vermelho, ele tinha o livro qual uma grande cartilha revolucionária. E que o manteria junto de si durante toda a vida. Dito isso agradeceu cortesmente e se foi.

Num pós-cadeia já tardio, aos poucos vencendo minha timidez e descarregando um certo furor de desejos, comecei a comentar sobre cadeias aonde estivesse, sem que as pessoas solicitassem. Para surpresas, as pessoas, geralmente desconhecidas, ao ouvirem pronunciar sobre presos, sistema carcerário, jurídicos, punições e vidas prisionais, não só ouviam como silenciavam, parando momentaneamente o que faziam. Agora, ao entrar num barbeiro, loja ou num grupo no ponto de ônibus, sem forçar porém numa certa altivez digna, ponho-me a dizer prisões. Todos escutam. Mas uns em espanto e interesse agradecem pela aula. A vida prisional desperta. Assim, ao praticar nossas falas e saberes sobre cadeias, nasce e cresce em mim forte noção de perguntas e desejos: o de aprender com quem me ouve por que param e tanto me escutam.

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