Inscritos no vestibular fariam provas no domingo. A direção da cadeia, a então antiga Dr. Serrano Neves ainda não partida em duas unidades, solicitou nossa colaboração docente. Arrumar um pouco a sala dos exames, receber os alunos; no geral mais um apoio moral auxiliar do que didático e físico. Guardas- professores ministrariam as provas. Nós, numa preocupação humana e escolar, arrumamos pequena merenda para os vestibulandos, em manhã  de raciocínios e respostas. Que todos só ao café das celas, ficariam horas trancados às questões e às grades da sala. O que lhes daria fome e sede, alterando o desempenho dos saberes e cérebros. Quase ao chegar dos vestibulandos, a tirania do chefe dos guardas-professores, num ímpeto ríspido e gratuito, censurou-nos proibindo a projetada distribuição do miúdo farnel. Não, disse-nos ele fingindo brutalidade, e esconda tudo para eu não ser forçado a uma negação por internos. O que objetamos, escondendo a merenda, que conosco e os presos tínhamos a total liberdade do sim e do não. Fora, bem fora, de uma relação de litígio, medos ou de guerra. Eu e os presos só éramos amigos e pessoas. E a mão de um atencioso professor colaborador acatou a ordem imposta, não sem algum desgosto interno e silencioso.

Antes do início dos testes marcado em hora oficialmente cronometrada, começaram os mecanismos e rituais de soltura das celas. Coletivo em R.D.D. ( regime disciplinar diferenciado ), os guardas só liberavam os vestibulandos das galerias um a um; em total aparato de revista, movimentos e cuidados. Como numa operação de alto perigo, provocando-nos ânsias de esperas e um sentido de que nada daquilo de amparos eram necessários e não levavam a nada. O que acontecera já passara, uma rebelião. E os tempos corriam entre as grades, de um silêncio inquietante e clima de pesado mal-estar. Num jorrão inesperado cabeça de fila de homens pôs-se à nossa frente, no dobre de uma esquina de concreto. O primeiro da fila ao nos ver abriu-se em sorrisos e manifestações de alegrias. Assim, desmanchando todo o aparato de corpo imposto pela ordem, suas mãos vieram à frente num caloroso abraço e cumprimentos. Seguido no respeito um a um nos seguintes, no ritual sincero das congratulações. Eles reencontravam seu querido professor. Depois de muitos dias de um vazio escolar massacrante.

Terminados nossos afagos, felicitações e desejos de boas provas, puseram-se eles os vestibulandos à sala, quase chegando ao fim a nossa tarefa de apoio. Porém notei no ar abrupta mudança nos guardas-professores em relação a quem vos escreve. Começaram olhares de falsa harmonia e comunhão de vida e civilidade, pois descobriu-se eu professor amigo deles, do crime. Produzindo no que foi antes tão ríspido e duro, manifestações de abrandamento, de medo inconfessável. Pois quem gosta cuida e protege. E a segurança das provas sentiu ali aos olhos, que os internos sabiam gostar, produzindo receios de entregas nosso e possíveis retaliações dos internos. O que nunca fizemos nem nunca passamos por estas vontades. O máximo ali, o ápice, foi aquela comunhão de vida e civilidade verdadeira, na amizade sincera dos nossos amigos de cadeia.

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