Sempre tive medo das privatizações das prisões; ao mesmo tempo tenho minhas dúvidas se é ou será ruim, misturadas com uma ponta de certeza. E sobre qual é esta certeza diremos a seguir. Durante tantos anos convivendo com as multidões cada vez mais crescentes de presos, elas mesmas, as multidões, me mostravam e comprovavam, que se havia como há grandes gastos com prisão no Brasil da ordem do bilhão, é porque existem em contrapartida grandes lucros. E estes lucros é que são amedrontadores. Amedrontadores porque são e produzem o bem-estar de alguém, grupos empresariais e de negócios, que agarrados ao filão de ouro chamado prisão, nunca mais na ordem das coisas vão querer largá-lo, antes defendê-lo a unhas e dentes, isto é com todas as armas, e mais cada vez mais. E este é o meu grande medo, de se historicizar tornando-se uma grande era, a das prisões.

Ao mesmo tempo havia e há outro objeto de apreensões, de indagações. Porque notara e noto fortes anseios empresariais privados, inclusive talvez de capital estrangeiro, para abocanhar a gestão do gigante complexo penitenciário brasileiro, mas o passo à frente nunca foi dado, como não ainda no momento em que escrevo estas linhas. Assim há empecilhos de interesses, que com certeza produzem lutas e quebras-de-braço nos bastidores do poder. Ao se chegar a um acordo, então a coisa explode de vez se resolvendo, e entramos em outro tão requerido momento. E é desse momento que mais tenho medo, na verdade intenso horror. E digo a seguir por quê.

Na ordem hoje natural de mundo, qualquer e todo proprietário de fábrica lucrativa, jamais quer ou deseja que ela acabe. Pelo menos num fim lutará para que ela a tal fábrica se mantenha a mesma. Num primeiro e grandioso plano, ao se privatizar as prisões brasileiras, o desejo de mais capital e lucro brigará para a produção e aparecimento de mais insumos, e estes os futuros e certeiros presos. Haverá em nosso social, como já existe hoje e há tempos, só que com mais vigor, toda uma estrutura complexa e lucrativa de fornecimento. O preso em suas múltiplas formas necessita e é inventado, ou seja produzido, em cada vez maiores escalas e estratégias. Fabricar presos e modelos de presos, será como já é hoje, um outro passo porque mais consolidado, de produção. E para que isso ocorra claro, haverá que se ampliar, semeando e nutrindo como um campo de trigo, a nossa miséria social formadora. Assim conclui-se, cada unidade prisional não passa e é só um depósito armazenador final, um silo de carne humana.

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