
Não consigo escrever sobre um outro o qual também fui. As lembranças esparsas muito sofredoras, nunca se ordenam e aparecem claras na mente permitindo contá-las. Sei o que fui, porém sem o poder dizer. Me lembro bem dos trens lotados e na exaustão do ir e do vir de todos os dias, mas parecem tão distantes, muito longe, ou então que nem sou eu porque era outro numa passagem por mim. Como num caso de totalmente negar-me ou esquecer-me naquilo. Houve torturas de fome e de sede, sei que houve, e muitas, rejeito-me a entrar ou voltar-me nelas; mas sei que todas estão dentro de mim, bem mais do que a ferroada em brasa na pele de uma prostituta medieval, ou de prisioneiro antigo. Elas as marcas de vida não me permitem. Por sorte saí das prisões sem tornozeleira. Vou deslanchar ao dizer algo mais a seguir.
Fui bandido e trabalhador. Olhando hoje nas bancas de jornais de todos os dias, vejo os dois, bandido e trabalhador duas categorias sociais, retratados nos mesmos e iguais tabloides sanguinolentos e vulgares. Diferem contudo numa realidade, a cara do bandido é estampada geralmente com ele ainda vivo, enquanto a cara do outro, do trabalhador, é grandiosa manchete com ele já morto. Um é estrela viva o outro estrela morta. Para ser operário desgastei-me fundo em muitos anos de estudo, para ser do crime a coisa periculosa naturalmente me acendeu brilhante. Não estamos a puxar aqui por um ou por outro; antes até porque sou eterno bandido e não mais trabalhador. O grande aguilhão do operário é o desemprego, um estar fora; já o aguilhão do band, para usar a redução dita pelos guardas, é um estar dentro, dentro da prisão. Deixemos de comparações. Só uma última por favor. Meu tempo na prisão foi um terço do tempo total de peão no trabalho, mas foi o que me deu toda riqueza de inteligência e vida. O outro, o tempo de peão, só uma aposentadoria árida. Penso aqui que há uma certa sinonímia entre os nomes peão e band. Nos trens e ônibus lotados se vai ao trabalho e se volta morto todos os dias; almejo contar histórias disso e elas me negam. Tenho por mim que eles, e eu nesse tempo operário também, não existimos. A vida só aparece e assim é quando em histórias, nem Cristo nem o próprio Deus escaparam. Então inglório teimoso analfabeto eu fico tentando. Vejam que nem aqui é uma história, só talvez a confissão do meu não saber. Então todos os trabalhadores brasileiros viverão sem existir, porque não têm história.
Mas vou agora bater em algo. Quando falamos em escrever, narrar, contar, estamos dizendo um próprio trabalhador-peão escrevendo sobre eles mesmos, como conseguimos um pouco sobre nossa vida no crime e nas carceragens. Achamos que há uma intensa e perpétua mudez operária, como as grandes grades condutoras de uma estação de enorme fluxo proletário. Não se pode contar e só andar no permitido. Talvez por esta razão toda eu não consiga também jamais escrever.



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