Ainda sonho com prisão. E creio não ser o único dos que passam por ela, como os guardas além dos presos. A grade nos atinge num ponto não só crucial, ou seja decisivo, porém o mais primordial de todos os outros na existência, o andar. Quem não anda não vive. A quebra bruta desse direito e função do corpo produz alterações, mudanças e mortes no indivíduo. Perde-se o mundo. E essa perda nos tira a certeza da vida. Todo pós-preso nunca é o mesmo de antes da prisão. Muitos passam a manifestar traumas amedrontadores, reagindo com terror e susto em contato com coisas e ambientes transformados na hora em prisão. A percepção se torna enganosa, o que não é pode ser que seja; melhor, é o que não é. No sonho o ambiente carcerário é tenebroso, num mundo sufocante de indesejável torpor. Surge por vezes em forma cinzenta com toques de escuridão, copiando as cores do inferno da tradição humana.

O meu sonhar e de quem quer que seja, mostra e prova como a grade prisional nos atinge, alcançando camadas profundas do eu. Prende-se a alma e o espírito ao se encarcerar o corpo. De forma lenta mas gradual age atingindo também todos os trabalhadores que lidam com presos; porém muito mais ainda e principalmente, aqueles que exercem atividades no interior do miolo como dizem, o local aonde ficam os presos, a carceragem. Porque a prisão é antes de tudo e sempre a carceragem, o encarceramento, a morte total do andar, do ir e do vir; que toda criança que aprende não quer nunca mais parar. Talvez a ideia e fé da eternidade religiosa venha daí, desse não querer mais parar. E a prisão momentaneamente ou não quebra e rompe isso, essa nossa pulsão primordial do andar, nascedouro e permanência de todo o existir, do ser. Prisão não é só a física, também as simbólicas; e estas existem e atuam no homem e grupos sociais, talvez com uma onipresença e onisciência pouco ou nada sentidas. Lembro agora de uma tela: sob um foco de claridade opaca um grupo de prisioneiros andam em círculo, enquanto dois guardas indiferentes conversam; o mundo está parado ali, semimorto. A invenção do muro é o contrário negativo do caminho e da porta.

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