Nossa literatura é traficante.

Delinquente da linguagem, eu planejo ainda muitas frases periculosas hediondas. Lembro aqui dos meus parceiros bandidos da CDD*, que colocaram faixa na rua proibindo todo morador de roubar. A faixa logo julgada criminosa, foi de imediato retirada pela ação e justiça da polícia. A imprensa que noticiou este fato, torpe e desdenhante, riu de nós, meros favelados do tráfico disse ela. Já escrevi o a seguir em outro lugar, mas pela importância necessito redizer. Medroso e de pequenos roubos inglórios, só quase já velho consegui, mais do que cometer um grande assassinato foi entrar numa área fatalmente proibida; isto é, me entregar total a só ler e escrever. Na contraordem como a faixa citada acima, eu sou e estou um fora-da-lei. Que todo favelado jamais pode alcançar o interdito pelo nosso social e jurídico. E pensar e rabiscar é um deles; mesmo que em garatujas populares num pano de faixa.

O crime da favela está no dizer da própria faixa. E nunca só num pedaço de pano qualquer, esticado entre dois postes em lugar visível. Qual foi e é o mundo social e da linguagem que necessitou a frase da faixa existir, perguntamos nós. O desejo em forma de ordem surgiu na favela, e mais do que desejar ordem ele é uma contraordem. A própria presteza da polícia em retirar a faixa e destruí-la configura a prova do crime. Mas já não o crime da favela e sim o que está fora dela. A mão da farda e a lei agem no contrassenso da ordem. Ou seja, no contrassenso dos olhares favelares e do crime de morro, porém na lógica e moral do estado. Talvez mais do que proibir o afano nas casas, barracos, ruas e becos, a letra bandida tenha atingido outros crimes, que não podem pela justiça jamais deixarem de acontecer. Porque se deixarem, será outra justiça; esta horrivelmente indesejada no momento.

Retornemos ao nosso crimezinho de prisão e de favela. Notar como sou irônico aqui. A moral de ser mais criminoso do que já era, me foi outorgada pela experiência cadeiante das grades. E então assim estou dentro da lapidar e sábia frase: “a prisão só forma bandido”. Mas eu nunca tirei diploma, a escola do crime não tem burocracia; sendo esta a grande lição, a ausência total do documento. Só a garganta e a mente escrevem em nossos ouvidos. Nossas falas assentam e atestam o produzido e o escolhido. A grade de suspeição e prova do documento não existe entre nós. O papo quando preciso é reto. Sou um homicida da ordem no lema da bandeira brasileira.

_________________________________

Nota: CDD, sigla de Cidade de Deus, bairro popular do Rio de Janeiro.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *