A nossa origem nunca era ali. Já chegamos todos adultos e assim formados. Mesmo nas prisões de menores, chamadas de socioeducativas, ninguém usa mais fraldas. Num amigável tempo bem avançado, meus companheiros do crime sempre me diziam que eu ainda seria famoso. Como falavam de uma forma verdadeira e assim convincente, me incomodava. Eu nunca sabia dizer um quê de resposta, nem ao menos um falso ou verdadeiro “obrigado”. O elogio não vinha solto, atrás dele havia a palavra “escritor”. A minha falta de entendimento possuía suas grandes razões. Eu não sabia, muito mais nem ao menos pensava, como escrever um livro. Nas poucas escolas por onde passei, parcamente só líamos enganosas cartilhas. Jamais houve um professor ou professora, que nos dissesse algo sobre páginas, capítulos e títulos. Quando muito, murmuravam em preenchimentos fúteis sobre inícios, meios e fins ao falar de redações. Penso hoje que muitos mestres, certamente o quase total deles, nunca escreveram alguma coisa, nem umas linhas. Quem sabe também se liam.

Nos tempos de lá ainda, naquelas multidões apertadas de presos, nada na minha cabeça havia. Todos nós, afoitos e desesperados, só queríamos sair dali. Nunca se formava uma consciência, a mínima que fosse. Talvez os elogios a mim quisessem dizê-la, formá-la. Nisto há um foco contrário que a impede, e a prova é que existe uma vontade nossa; vontade de escrever e de contar. Quando mais soltos nas grades, lembrávamos histórias das ruas e nos dizíamos, quase como um grupo alegre numa mesa de comida. Mas então era preciso pensar sobre isso, de onde e como viemos cada um até chegar ali. E para tal tínhamos que ter uma fórmula. Mesmo que alguns lêssemos, ninguém possuía um diploma de literatura. Até as cartas mandadas da prisão para a rua aos parentes e as chegadas, foram sumindo; hoje nem sei se existem ou se escrevem mais, num mutismo analfabeto talvez quase pleno. Nossa letra brasileira sempre foi tacanha e preguiçosa em garatujas mal balbuciadas, por certo muito reprimida. Falo da maioria, e não da minoria em constante regalo.

Sem escape nós presos viemos de um lugar social único. As coisas existem e funcionam por estratégias longas e bem marcadas. Então que fôssemos contando nossas histórias particulares, a ver se tinham um cenário de fundo comum ou não, suas identidades e diferenças. Mas estou falando num passado que nunca existiu, um saber do mundo global nosso de prisão. Observo hoje que cada escritor possui a sua fórmula mental e de escrita. É preciso deixar sair, libertar-se do que nos prendia e prende, do que nem nos permite dizer de nós mesmos.

Existe um impedimento histórico, não tive biblioteca de formação. Favela não nos dispõe de livros. Nas casas e famílias, não possuímos tempo e oportunidade de arrumarmos alguns volumes, por menores que sejam, nalguma prateleira visível. Ser escritor é um termo desconhecido ou inalcançável em nossas falas. Favela é só mãe de trabalhadores* e de bandidos. Assim claro, não sei, nunca poderei saber, de onde ou como meus amigos tiraram a ideia, sonhante para mim, de que eu escreveria livros. Ser escritor nunca passou eu menino pela minha cabeça. Antes porque desconhecia a palavra “escritor” e a sua função. O único livro mais do que permitido, desejável e obrigatório no lar era a Bíblia. Ela, hoje reconheço, a minha única biblioteca de formação. A favela mesmo não pode escrever, não pode contar a sua história, só os outros que a veem de longe ou de muito longe. Como resolver isso, não sei, não sei. Talvez eu nunca possa saber.

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Nota do autor: quando falo trabalhadores refiro-me aos mais simples, geralmente os de baixos salários. Ser arquiteto é inalcançável para um favelado. Valendo-nos repetir e assim realçar aqui, que um candidato à cadeira de juiz, se descoberto em seus trabalhos de formação a palavra “favela”, fica automaticamente indeferida sua aceitação na magistratura; ele não pode ser juiz.

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