Arrancam o chapéu da minha cabeça. No golpe viro-me e ainda vejo a mão e o corpo do menor delinquente a roubar-me. Embruto-me, e sem trégua bato violento na lateral do ônibus a que o motorista espere. Subo no veículo falando baixo mas em frases ameaçadoras. Estavam três menores únicos nos bancos detrás. A voz me falou primeiro em polícia porém logo a seguir endireitei-me, a cabeça bandida me auxiliou. E assim ameacei de “passar”*; alertei sobre as grades de Gericinó em tonalidades do crime. Ao ouvir-me dois deles os mais pequenos balançaram, tremeram. O maior, no último banco e sozinho, com o chapéu na mão fingia segurança. Com uma sacola de mão, eu podia puxar dali uma pistola. Meu corpo vociferava inesperados. Logo ainda de início tentaram enganar-me com papos falsos de delinquentes, mas ali meus ouvidos já estavam bandidos. Sem afinal saberem quem eu era, na precaução das próprias vidas devolveram-me o adereço de cabeça surrupiado. Rolou um perde-ganha da guerra. Tentaram e não levaram. O velho desconhecido quase vítima talvez fosse um polícia, ou então um traficante aposentado das prisões de Gericinó, com trinta anos de condenações corridas. Desci do coletivo urbano ainda bastante ameaçador. Trocamos eu ele, o menor maior chefe dos outros dois, despedidas inimigas e zombeteiras. No lance, a pequena multidão à espera de condução, estávamos à noite, torcera muito favorável ao meu sucesso. Rostos dirigiam-me brilhos de alguém herói. A tarefa escolar antiga fora executada com certo desempenho, quase num dez professoral.

Repassemos com dois discípulos por nossa academia de formação. Luz clássica acendeu na escuridão da cela escolar; liberdade em pensamento nos disse que periculosidade é qualidade de perito. Corri já em casa ao idioma latino e encontrei PERITUS e PERICULUM muito bem relacionados, antes porque na cara com o mesmo radical. Quando meus olhos não sabiam ver, eles delinquentes inteligentes me clareavam à frente. “Sabe professor”, me disse outro orientador bandido, “lá fora, ao tentarem te ganhar num assalto ou roubo, nunca deixa te perceberem quem você é; o mistério produz cegueiras e dúvidas; e assim quem te aborda pode ganhar mas também pode perder”; já numa lição periculosa para mim.

Agora aos currais linguísticos e aos bois domesticados. Como já visto, periculosidade vem do Latim PERICULUM, significando capacidade de realizar. Agregado pela gramática dos palácios ao mal, na formação do discurso de dominação e controle, o vocábulo latino ajusta-se e funciona na estratégia do limite, do não permitido. Verdadeiramente realizar está na altura da liberdade, e pior, na de inteligência não autorizada.

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Nota do autor: passar, matar. Passei ele para outro mundo, por exemplo.

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