Os conheci inesperado há uns quinze anos atrás, sem saber ainda que existiam. Estavam apagados no brilho das nações. Talvez que lá tivessem acabado de atravessar o Mar Vermelho. Na epopeia que ora já iniciavam a perambular e cortar desertos, como também a destruir inimigos, nossa inteligência ignara não soube enxergá-los. Chegando eu de chofre numa cadeia nova a lecionar pensamentos e letras, todos já estavam nela reunidos e unidos em nação. Encontrei ao acaso antigo aluno, antes cidadão de outra comuna prisional, o Terceiro Comando. Pesquisante aos ares e aos ouvidos, soletraram-me que todo o coletivo aprisionado da casa gradeada aonde estávamos já era o seguro do seguro. Explico-me isso adiante. Ao estar em risco de morte na carceragem, por infringir regras estabelecidas na ordem do crime, o interno prisional pode legalmente solicitar e conseguir seguro de vida à segurança penitenciária. Isto significa, que o tal interno é retirado do coletivo geral que o amedronta ou lhe periga a vida, e vai aprisionado para outro local em separado, o dito seguro. Ocorre que nas muitas cargas d’águas humanas e sociais, formadoras de novos brotamentos, o já citado seguro apontou no solo e cresceu em número de gentes, tornando-se um novo e destacado coletivo, no canteiro prisional de Gericinó no Rio de Janeiro. Que, batizado do nome patriótico do título deste escrito, soou-me aos ouvidos significando à cabeça sofrimento dentro do já sofrimento, o um pouco a mais dos sem pátria. À época da descoberta deles não pensei e assim não vislumbrei nada; ou seja, que já unidos ali em separado naquela prisão nova e insignificante, como já cogitado ou dito, iam à busca em peregrinação da Terra Prometida.

Um enxerto. Percebi-me hoje em histórica dúvida. À época da descoberta dos apátridas do crime, ao me dizerem seguro do seguro, eu entendia que ali, naquela casa amuralhada cheia de gente, estavam os já num segundo seguro; isto é, jogados a um primeiro e empurrados a um segundo. Porém pensando no termo seguro do seguro, que adquiriu ambiguidade na minha cabeça, compreendi que ao se nomear seguro do seguro, ele o termo nos diz simplesmente que a tal cadeia, à época do povo hebreu do crime, era um espaço acolhedor dos exilados e esporádicos segurados vindos de todas as outras prisões do complexo penitenciário. Sendo então só uma solução de espaço ao aumento de diferenciada população criminosa, a do seguro.

Pulou-se no tempo os quinze anos passados. Em conversa com amigos voltei a saber deles aos poucos, os da antiga marginália coletiva no seguro. Demorei a me firmar numa relação de saber. Ou seja, se de quem me falavam atualmente eram os mesmos de antes, os do seguro do seguro; que aos poucos se confirmou, são os mesmos. Só que já soberanos num território, a Terra Prometida. Isto tudo me remonta ao Gênesis Bíblico. Vamos a seguir no por quê.

A Terra Prometida presentificou-se em Parada de Lucas, bairro periférico do Rio de Janeiro. O antigo seguro está senhor nele, o tal bairro, em pujante e diferente facção. Ferrenhamente judaico-cristãos, varreram higiênicos do lugar tudo o que para eles do crime não presta. A começar e principalmente os cultos e crenças de origem africana, enfim todos os tipos de macumba e demais atividades antissemitas; melhor, antimosaicas. Deus, armas e mortes estão juntos e misturados como no Gênesis peregrino de Moisés. A tolerância a quem adora deuses estranhos e falsos, e não o verdadeiro e único, é zero. Os muros da linha férrea estão cheios de mandamentos e condenações. Seriam eles as atuais tábuas da lei, pergunto. Ao que se sabe fuzis e pistolas frequentam assíduos os templos. Afinal, o inimigo pode estar em qualquer parte, dos macumbeiros à polícia, passando por tudo que não seja a estrela de Davi. Tráfico bandido e religiosidade, quem sabe também santidade, se misturam e compõem um novo caminho. Fugindo da perseguição fundaram sua Canaã. O pouco ou quase nada que isto narrado nos revela, talvez em fenômeno ainda, diremos a seguir.

Primeiro a invenção do caminho, de um novo e salvador caminho. Que tudo total de antes já não prestava mais; melhor, matava e reprimia tirânico. Assim, no geral da nação brasileira se põe não só o caos, mas junto ou além dele, projetos e lutas incansáveis em busca do território que ainda não temos, ainda não conquistamos.

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