Mapa do atual Estado de Israel.

Os conheci inesperado há uns quinze anos atrás, sem saber ainda que existiam. Estavam apagados no brilho das nações. Talvez que lá tivessem acabado de atravessar o Mar Vermelho. Na epopeia que ora já iniciavam a perambular e cortar desertos, como também a destruir inimigos, nossa inteligência ignara não soube enxergá-los. Chegando eu de chofre numa cadeia nova a lecionar pensamentos e letras, todos já estavam nela reunidos e unidos em nação. Encontrei ao acaso antigo aluno, antes cidadão de outra comuna prisional, o Terceiro Comando. Pesquisante aos ares e aos ouvidos, soletraram-me que todo o coletivo aprisionado da casa gradeada aonde estávamos já era o seguro do seguro. Explico-me isso adiante. Ao estar em risco de morte na carceragem, por infringir regras estabelecidas na ordem do crime, o interno prisional pode legalmente solicitar e conseguir seguro de vida à segurança penitenciária. Isto significa, que o tal interno é retirado do coletivo geral que o amedronta ou lhe periga a vida, e vai aprisionado para outro local em separado, o dito seguro. Ocorre que nas muitas cargas d’águas humanas e sociais, formadoras de novos brotamentos, o já citado seguro apontou no solo e cresceu em número de gentes, tornando-se um novo e destacado coletivo, no canteiro prisional de Gericinó no Rio de Janeiro. Que, batizado do nome patriótico do título deste escrito, soou-me aos ouvidos significando à cabeça sofrimento dentro do já sofrimento, o um pouco a mais dos sem pátria. À época da descoberta deles não pensei e assim não vislumbrei nada; ou seja, que já unidos ali em separado naquela prisão nova e insignificante, como já cogitado ou dito, iam à busca em peregrinação da Terra Prometida.

Um enxerto. Percebi-me hoje em histórica dúvida. À época da descoberta dos apátridas do crime, ao me dizerem seguro do seguro, eu entendia que ali, naquela casa amuralhada cheia de gente, estavam os já num segundo seguro; isto é, jogados a um primeiro e empurrados a um segundo. Porém pensando no termo seguro do seguro, que adquiriu ambiguidade na minha cabeça, compreendi que ao se nomear seguro do seguro, ele o termo nos diz simplesmente que a tal cadeia, à época do povo hebreu do crime, era um espaço acolhedor dos exilados e esporádicos segurados vindos de todas as outras prisões do complexo penitenciário. Sendo então só uma solução de espaço ao aumento de diferenciada população criminosa, a do seguro.

Pulou-se no tempo os quinze anos passados. Em conversa com amigos voltei a saber deles aos poucos, os da antiga marginália coletiva no seguro. Demorei a me firmar numa relação de saber. Ou seja, se de quem me falavam atualmente eram os mesmos de antes, os do seguro do seguro; que aos poucos se confirmou, são os mesmos. Só que já soberanos num território, a Terra Prometida. Isto tudo me remonta ao Gênesis Bíblico. Vamos a seguir no por quê.

A Terra Prometida presentificou-se em Parada de Lucas, bairro periférico do Rio de Janeiro. O antigo seguro está senhor nele, o tal bairro, em pujante e diferente facção. Ferrenhamente judaico-cristãos, varreram higiênicos do lugar tudo o que para eles do crime não presta. A começar e principalmente os cultos e crenças de origem africana, enfim todos os tipos de macumba e demais atividades antissemitas; melhor, antimosaicas. Deus, armas e mortes estão juntos e misturados como no Gênesis peregrino de Moisés. A tolerância a quem adora deuses estranhos e falsos, e não o verdadeiro e único, é zero. Os muros da linha férrea estão cheios de mandamentos e condenações. Seriam eles as atuais tábuas da lei, pergunto. Ao que se sabe fuzis e pistolas frequentam assíduos os templos. Afinal, o inimigo pode estar em qualquer parte, dos macumbeiros à polícia, passando por tudo que não seja a estrela de Davi. Tráfico bandido e religiosidade, quem sabe também santidade, se misturam e compõem um novo caminho. Fugindo da perseguição fundaram sua Canaã. O pouco ou quase nada que isto narrado nos revela, talvez em fenômeno ainda, diremos a seguir.

Primeiro a invenção do caminho, de um novo e salvador caminho. Que tudo total de antes já não prestava mais; melhor, matava e reprimia tirânico. Assim, no geral da nação brasileira se põe não só o caos, mas junto ou além dele, projetos e lutas incansáveis em busca do território que ainda não temos, ainda não conquistamos.

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