
Material criminoso fora apreendido na carceragem. A beleza das cartas de baralho nos surpreendia pelos desenhos, precisão dos traços e cores; tudo feito à mão com canetas esferográficas preta e vermelha. Não se pode jogar na prisão, qualquer tipo de jogo está proibido por lei. Então nos perguntamos, no dia da revista nas celas e apreensão referida, qual perigo fazia aquelas cartas nas grades. A indagação nos veio saindo de dentro da cadeia, alcançando e persistindo aqui fora, com o andar dos anos da nossa liberdade. Não temos cassino autorizado no Brasil. Só jogamos livres nas porrinhas da mão, passando pelo bicho*, máquinas da sorte escondidas ou mascaradas por botequins, e demais entulhos do sonho, da esperança e do azar. Mas tudo isto perseguido e policiado. Só o governo pode inventar e ter jogatinas, ganhos e misérias para explorar. Adiante arriscaremos apostar no dizer.
Os bilhetes lotéricos com as centenas e os milhares em algarismos da sorte ou azar sempre existiram, as loterias oficiais. E contínua a ordem combatendo o jogo popular ilegal do bicho; este meio tolerado e muito lucrativo para seus chefes bicheiros e polícias; aonde todo mundo ganha dos dois lados em conflito e regateios. As invenções e modos de jogar vieram nascendo e crescendo, surgindo ao necessário as redes de casas lotéricas. Alcançamos em gigante avanço a internet com as “bets” e tudo mais; a riqueza e a pobreza perenes online.
Tendo o futebol como uma de suas bases fundadoras, jogamos e driblamos porque somos exímios campeões. Vencer é a glória nacional, mesmo no ocaso de um grande infortúnio depois; sem o dinheiro do pão porque se apostou naquilo que não deu. Os prêmios das quinas e senas enfeitiçam e atraem, plantados em nossas abundantes e férteis misérias. Então, cada vez mais ficamos pobres e ricos; aqueles pelos estômagos vazios da fome, estes em ganâncias e regaleios reais. O governo possui e impõe jogatinas, alardeando riquezas e prêmios, arrecadando milhões na banca nacional. A fome e a morte sempre aguentam e podem esperar. Num jogo marcado aonde quem manda só ganha, e quem esperançoso submisso infinitamente perde.
*Jogo brasileiro diário, representado por vinte e cinco bichos; ou seja, animais.




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