Quando saímos condicionados as barreiras burocráticas e sociais são enormes e duras. Existe todo um mundo que não quer ex-presidários cidadãos, ou seja documentados na lei. Ao que sabemos, não existe nenhum órgão de governo auxiliar ou facilitador. Nos querem depois das grades só banidos e bandidos. Nunca ouvi histórias nas celas sobre busca e esperança de se reinserir cidadão. Alguns já na segunda ou terceira cadeia nem pensam mais nisso. Mesmo quem consegue desertar do crime vira sempre um fora-da-lei. A ficha suja e os impedimentos cansativos, com tratamentos de que somos só bandidos, fazem nascer as desistências e os nunca mais pensar sobre isso, o de ser todo legal, dentro da lei. Uma faixa da população vaga incerta, tentando se equilibrar entre cidadania e exclusão, muitos que nem foram do crime.

Poderia haver um órgão em cada estado brasileiro junto às prisões, que nos orientasse e apoiasse na saída das grades. Se já houver ele se esconde num lugar inacessível, para que ao certo ninguém o veja ou alcance. Uma vez bandido, bandido até morrer como reza na lei. Formamos uma população de ex-grades sem escape, a qual ninguém ousa de se lembrar, como num purgatório sem saída, que talvez faça parte do processo. Recente, vi um ex em tornozeleira condicional vendendo doce no trem urbano; me deu vontade de perguntar como ele se via e se sentia, e quais suas esperanças de futuro. Às vezes vejo um ex na feira de rua, com cara bem patente das prisões de Gericinó. Noutro visual, um pedaço de meia bem ajeitado veste na canela a tornozeleira, marca eletrônica da vida condicionada. Estamos criando assim uma faixa cada vez maior de população marcada e perpétua, a dos adereçados prisionais. Uma parte de cada favela sempre será isso, nos destinos socialmente implantados, nunca diferente. Para mudar um móvel implica mexer e assim alterar a casa toda, a república. Que mesmo eliminando uma simples cadeira modifica a realidade da decoração e dos fins, coisa inconcebível.

Nem sei porque escrevi isso, como um gritar num deserto vazio. Mas dizendo assim em negativo, invalido ou coloco em xeque todo o escrito nosso sobre prisões, que equivale ao tempo total da minha vida condicional, e esta do que me resta de vida inteira.

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