Os assassinatos são tantos, que em três dias já os esquecemos; para sabermos dos outros.

“Tenho todo cuidado ao tirar meu telefone celular do bolso, podem pensar que é arma e me matar”, me diz motoqueiro negro e trabalhador. Por que pergunto eu, precisamos enfatizar tanto as palavras negro e trabalhador? Antes não existe a vida? E ele o rapaz da moto mais do que toda e qualquer razão, sabe que no caso dele é uma crucial questão de vida ou de morte. Pois já entramos há muito tempo na era do atirar primeiro e saber depois, em nosso faroeste brasileiro. Motoqueiro e negritude formam um par perigoso para os dois lados, o de quem vê e o de quem é visto. Deu no jornal: sargento fuzila indefeso vizinho negro tomado por ladrão. Mas tudo suplanta e muito só a questão da cor, esta sendo uma questão e nunca só realidade, incluída fortemente como um rótulo de alta suspeição. Ao atravessar a rua à noite no sinal de trânsito por dois dias seguidos, entrei em pânico, os carros vieram em ímpetos de morte na minha direção. Isso também faz parte ou compõe o nosso urbano da violência. Esmagaram em local público até a morte um congolês, utilizando como instrumentos pedaços de madeira e outras coisas, e não apareceu ninguém para intervir. Pessoas na rua principalmente mulheres, mostram pânicos mórbidos. As almas estão doentes. Segurança de loja me confessou: “estando no trânsito, eu me adianto ou me atraso ao ver comboio de polícia, a violência e a morte podem estar muito perto”. Estamos no Rio de Janeiro. Com turistas nas ruas, eu me pergunto o que eles vieram fazer aqui; talvez procurando uma bala perdida*.

Bala perdida: aquela que atinge alguém fora do conflito.

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