Cada início de noite se tornou um parecer, uma expectativa. Nas preparações das camas dormideiras, de um chão liso ao aconchego do acolchoado em abraço, este já amoldado à total forma do corpo que recebe; todos, infinitamente todos, do recém-saído de barriga, passando pelo aleijado mais horrível e incapaz, até os velhos carquéticos, estão obrigados aos preparos e aos intensos cuidados e medos. As mortes trazidas pelas balas atravessam paredes. As casas têm algo das antigas casamatas e de trincheiras. Há uma briga ferrenha e infernal entre as portas e janelas e os pés violentos que as derrubam, as defloram como bocetas velhas, imprestáveis e já muito usadas, arrombadas. Uma porta dos fundos pode não passar de malcheiroso fedorento cu. Mas todos precisamos nos proteger. Proteção a qual estamos proibidos, talvez por ser ela já um crime. Mas a dureza ou moleza da parede pelo menos ainda nos esconde. Podendo ser num futuro que todo barraco, casa ou cabeça-de-porco*, seja obrigado pela lei senhorial a instalar uma rigorosa câmara de vigilância e proteção. Cagar vai deixar de ser secreto, como também foder e peidar; os áudios já olfativos pegarão até os fedores de cus e arrotos de bocas podres. Nada pode falhar, tudo tem que ser visto, ouvido e cheirado. Na visão implantada do Bem, de que filhos de bandidos são as sementes mais natural do Mal, surgirão tornozeleiras para crianças e rapazes, como bebês já do crime receberão as suas ainda nas maternidades aonde nasceram, melhor, aonde foram arrancados das barrigas pelas mãos médicas. Tudo sob total controle. Os dóceis enquanto dóceis, como trabalhadores em geral e de quem só se ocupa e defende sua própria exploração e sequestro de vida inteira pelo outro, as tornozeleiras, com as cores da bandeira nacional, serão as tornozeleiras do amor; quem as possuir tem espaço garantido no céu de Jesus, sua alma bendita conviverá eterna com Deus. O mundo favelar estará então e finalmente todo identificado como os do Bem e os do Mal; salvo ainda raríssimas exceções. Cada simples tornozelo dirá e mostrará tudo. Caso haja qualquer dúvida, o agente fiscalizador retirará da tornozeleira do suspeito um chip, que conectado a uma câmara portátil repassará aos olhos do fiscalizador de vidas todo o seu passado, até o instante presente. Avançaremos em futuras memórias eletrônicas, que registrarão e assim documentarão cada total universo mental. Mas todo esse mundo só para as classes e estratos sociais constitucionalizados perigosos inimigos, suspeitos e sujos; estes últimos no real e no metafórico; bunda suja alma suja. As tornozeleiras dirão sangue, origem familiar, buraco ou terra natal, espaço social e identificações de amigos; ou seja, com quem o cujo ou cuja se relaciona e convive. A folha de papel escrito, chamada certidão de nascimento, nem lembraremos mais dela. No grosso anel eletrônico acima do pé que anda, vem o dia, a hora e o mês com ano, do surgimento daquela vida que o possui no mundo. No aparato eletrônico tornozeiral, na memória dele para uso, estarão todos os sexos catalogados; ou seja os passados, os presentes e os futuros. Mesmo no masculino e feminino existirão gradações, nuances, ou intensidades ao infinito. Todos os machos não são o mesmo macho, num mesmo igual teor, assim como todas as fêmeas. As cores sexuais dos corpos serão de qualquer e infinitas cores, podendo estas também se fundirem infinitas entre si. A memória chipiana mostrará tudo de ativos, passivos, meios-termos e duplos. Inclusive, nos casos de bandidos criminosos assim como eu, todas as gradações e nuances do Mal estarão catalogadas, vistas e registradas. Como assim então os anos, dias, horas, minutos e segundos de tempo de cadeia. O mau não é só um tipo de mau, são infinitos males. Mal com “u” ou mau com “l” tudo é uma mesma merda só, com infinitas gradações não nos esqueçamos. O bom e o mal comportamento de nós prisioneiros nas grades, embora saibamos que um ou outro é tudo uma mesma merda só, sairá dentro do anel canelar quando da soltura do band*; porque nós bandidos ganharemos cada um um de presente de entrada, ao sermos empurrados às celas. A liberdade será pela cor da tornozeleira, tanto a honesta trabalhadora como a bandida do mal. Morto a tiros alguém, este será conhecido pelo exposto no inferior da perna: se é bandido como eu, trabalhador honesto porque todo trabalhador é honesto e bandido nunca, foragido, desempregado, camelô ambulante ou pedinte de rua; embora pedinte, camelô, foragido e desempregado possam se fundir entre si às infinitas. Nem todas as carnes apodrecerão, algumas serão queimadas.

Notas: cabeça-de-porco, vila pobre, suja, geralmente suspeita e inimiga de governo.

Band, abreviatura do substantivo bandido.

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