Muitos irmãos eu só conheci eles já no crime. Nossa mãe teve doze dos quais morreram seis. Papai lutava a nos alimentar de arroz com feijão. Eu e meu único irmão homem, quase nunca brincávamos nós dois sozinhos. De cores, cabelos e naturezas muito diferentes, cada rosto o de mim e o dele se voltando assim para outros cantos de si e do mundo. Meio inimigos brigávamos de vez em quando. A comunhão parental andava às vezes à força e muito dispersa, quase não existindo mais. Na rua eu encontrava outros irmãos, nas brincadeiras descalças de meninos antigos.

Ao ingressar nas prisões vim de irmandade vazia, sem nunca de rejeições, tatos e cuidados de higiene por avisos. Sempre nos falei natural, evitando ou destruindo falsos tons floreados de voz e de gestos; só na voz, naquilo que nos vem de dentro ou já está intenso por fora entre dois corpos e olhares. A vida nos fazia irmãos por aquelas grades coletivas de Gericinó; e cada qual dos milhares no jeito e gosto se vivendo nela. Uns deles se chegavam mais para mim, como eu também me infiltrando. A delinquência da vida dentro de nós, mas o jurídico não, imposto dos tribunais. O corpo mesmo da vida se nasce sempre sem ordem, por outra ordem, só dela mesma. O mundo sociedade com suas falas de balizas como fraterno, amor, comunhão e etc., nunca se ecoavam por nossas almas e vozes; num sentido éramos mesmos só bandidos. Se um gesto sublime nascia, exercia seu viver e mutação de mundo sem o de ser nomeado. Irmãos sem o precisamos saber.

Depois de dias, meses ou de não sei quandos fui me atendo mais, porque eu todo já estava parental; sem nunca necessitar de quantos ou tão tais; só vistos ou sentidos pela clareza em nossa mente, como em três ou quatro de uma multidão sem fim, na qual vivemos sem nunca sabermos com precisão o de quantos em nós dela; só o espírito indecifrável sabe dizer. Por vezes num pátio e corpos sujos, brotava intenso e gozante d’alma um naco de pureza pelo brotado de uma simples conversa. O sentido de família sumia, vindo outro em seu lugar; melhor e no certo, cada um deles no seu; forças diferentes que nunca se tocam, vindas cada qual de outros seus nascedouros: o humano e o do papel escrito.

Nosso grau de parentesco então se ampliou e mudou, cores e sangues não eram nada noutras cores e de mais sangues. Negros, louros e mulatos na mesma família. Por entre nós assim pai e mãe se trocavam, se mudavam. O parental marcado desmarcado na vivência das alas, corredores, celas, comarcas e bois*. Noutros homogêneos e heterogêneos. Depois e durante todas as prisões por quais passei, não sei por quantas e tais famílias me pertenci. Meus originais de pais e irmãos se foram tudo por outros e águas-abaixo; noutras famílias, fora do insosso desta do aparo do sangue e das normas das leis dos cartoriares.

Boi: lugar dos banhos e das necessidades, no jargão penitenciário do Rio de janeiro, Brasil.

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