Prisão é um amontoado de coisas e o homem no centro delas.

Acordei num desenlace em sabor de liberdade inteira. “Meu último dia de dez anos e seis meses”, disse aos dois guardas da derradeira portaria. Na lata recebi elogios; eu não me metera em corrupção disse um. Justo o que me recebera ao chegar na prisão Bangu III, ainda bandido cru, novato. O outro guarda que me foi abrir a última fechadura, a já da rua, puxou conversa longa; dizia mais pelos olhos que pela boca. Aliás, me envolveu num certo silêncio prendedor. E seus gestos foram ficando lentos a me retardar. Meus pés doidos a sair. E eu dependia dele a que puxasse o ferrolho do fim. Por mais que acenasse na pressa ele não me ouvia, numa lerdeza calculada inchando-me de ânsias. Meu nariz queria o ar livre de fora, como numa sede faminta. A demora foi virando uma teia que me alongava ali, feito um anfitrião torturante na porta de saída. Por fim, depois de libertar-me ainda não me soltou. Agarrado à porta de ferro comigo já fora da muralha, prendia-me, já muito desconfortável pra mim. Na luta eu lhe suportava. Percebi aos poucos que queria meu gesto, ser eu para nunca mais voltar ali. Seu rosto me pareceu de criança triste, em portão de escola querendo fugir; na tortura de horários, obrigatórios chatos e castigos, as primeiras prisões fora de casa. De mim humano, me condoeu nosso “até” em corte definitivo de separação pelas grades; as que a vida vai nos agarrando em falas de crescimento, amor, muita felicidade e de um mundo melhor.

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