A periculosidade é uma transcendência, e por assim uma imanência.

Novo de cadeia eu não sabia ainda as normas da casa, nem as do crime do qual já fazia parte. Ao chegar a uma pequena sala, o preso levantou-se em respeito sem que lhe pedissem. Perguntei por quê. Ele não entendera bem, aí esmiucei o porquê se levantara se ninguém pedira ou ordenara. Respeitoso, continuou de pé. E assim explicou-me ser a orientação na ordem coletiva da facção. Qual orientação, continuei. A orientação professor, de que o direito primordial de sentar não é de quem já está aqui dentro, mas de quem vem de fora para trabalhar no social conosco e por nós. Então eu disse-lhe em bons termos, que eu não lhe pedira a cadeira a modo de sentar-me; mesmo já às portas das últimas idades e ele sendo forte e vigoroso. Porém, continuei, que bem antes ainda, mais do que qualquer outro caso, éramos ali, portanto em todo o mundo, duas pessoas num encontro casual. As pernas do meu ouvinte continuaram em pé. Se eu tivesse que me sentar, em necessidades de trabalhos, cansaços ou exaustão, lhe pediria. E o faria da forma mais cortesmente possível entre duas pessoas civis; tão educadamente como você me disse e me tratou.

Bandido depois bem mais fundo, aos dez e poucos anos que por lá respirei de grades, torturava-me ao acaso e momentos, os miúdos porém rituais e perenes tratamentos dispensados a nós presos. O de não poder sentar-se nem que seja ao chão, cansava-me a alma, mesmo não sendo eu. As pernas rebelavam-se pelo meu corpo inteiro. A negação de pessoa por um gesto comum. Só gente pode descansar, e vocês todos bandidos não. E lá dentro das grades eu me lembrava das filas cá fora, torturantes, inúteis e sem sentido. Talvez ou certamente como a nos marcar e preparar-nos para o ainda pior. Ou as esperas num balcão sem sinal algum de que alguém nos vê; e por quantas vezes isto passamos; zero grades, mas num cárcere e garrote de vida.

Estávamos numa cadeia, eu e o preso; e eles pessoas que também somos nós cá fora ainda não. Assim, sempre que nos bandidávamos a ordem do costume ficava desfeita; a começar e sempre na igualdade das nossas falas. Até chegarmos ao ponto, e o alcançávamos, das relações de que somos das mesmas carnes e estamos no mesmo mundo.

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