Após aqueles “Dias de Cão em Bangu III” já narrados em outra crônica, davam-me horríveis rejeições só em pensar me aproximar de onde eu tivera momentos tão felizes de amizades e provas de gratidão. Muitos amigos continuavam lá. Então eu procurava o mais que pudesse, nunca mais colocar os pés naquele inferno de cadeia. Certa manhã, só em ter que entregar um documento burocrático na administração de Bangu III fora da carceragem, deu-me horrível dor de cabeça repentina de forma inexplicável; como se o corpo e a alma estivessem avisando de algo horrível, ou simplesmente repudiando o inferno. Mais ou menos por esta época, um aluno que passara por lá, contou-me que até certas visitas saíam com dores de cabeça. Enfim, a Dr. Serrano Neves do início das nossas prisões era o pior dos infernos de Gericinó. Não sabendo até agora como todas aquelas vidas aguentaram, sobreviveram. Espero um dia saber.

Fora já da carceragem de Bangu III, que tanto me ensinou e fez crescer a alma, e agora só lecionando na cadeia Plácido Sá Carvalho, minha vida já não se sentia tão animada. As amizades eram poucas e frágeis. A escola fedia toda por dentro, havia alguma antiga fossa abandonada por baixo. Uma parte da escola antes fora cozinha, cheirando assim sempre a restos de comida podre de prisão. Não havia a organização da multidão interna do III que vivêramos tão bem. O coletivo preso de agora uma massa de desocupados sem direção. Alguns dos internos vinham à escola como um último refúgio social de vida; não tinham mais para onde ir. Toda relação parental estava esgotada, morta. Assim, sem espaço no hoje, não tinham um grão sequer e qualquer de horizonte futuro. Por certos grupos, meio mal cheirosos no inverno, não havia nem gestos de pequenos erros, num certo estancamento de vida totalmente inerte. Mesmo assim, movimentos de alma vindo deles, com aquela imundície toda, davam-me sentimentos de piedade e vontade de chorar. A vida nunca se cansa.

Lógico que esta visão estava restrita só ao que víamos pela escola. Por algumas manhãs vazias, colocava-me em uma pequena janela discreta e com grades a olhá-los no grande pátio a céu aberto. Grupos iam e vinham. Outros, parados conversavam. Mas tudo aquilo me passava um sentimento de vazio, de uma profunda falta de sentido sem fim. Para dar algum, imaginava como um campo de concentração; de mais do que condenados, todos imprestáveis. Estávamos num canto de lixo social do mundo.

Mas o grupo ou pessoas fortes no crime viviam integrados e distantes nas celas, nos seus negócios e atividades diárias; longe, bem longe, daquela fedorenta escola aonde lecionávamos. Não precisavam da migalha falsa vinda do governo. Tinham e estavam no seu social. A vida, mesmo que na cadeia, seguia; por alguns quase incólume. Dando-me a impressão, que não é estar ou não no crime que coloca o sujeito socialmente numa posição de bem ou de mal. Sabemos que muito trabalhador responsável e ordeiro não tem aonde cair morto. A ordem do mundo é outra do que aparenta ser. A começar pela justiça, todos os valores morais é só uma capa enganadora. Deus e o Céu talvez estejam nesta.

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