Caminhando entre as grades das bocas nas alas os olhos sempre buscavam. Os interiores das celas me pareciam vilas meio-cortiço. Lembravam algo ou coisas vividas e vistas da infância, que nunca eu sabia o quê. Mas tudo enfim me atraía, qual num olhar furtivo proibido de coisa desviante muito gostosa. Para ajudar-me e ser discreto o rosto ia como que a olhar ao chão, porém com focos à direita ou à esquerda, conforme passando, na situação de disfarçar-me e de pegar um movimento, uma paisagem ou fato num instante de clicar, feito fotógrafo ágil. Quem sabe num olhar de Caravaggio. Entrar e sair cruzando toda a avenida da ala parecia-me o principal, um passeio. Prazer que eu escondia de todos. Nunca parei a conversar com elas, saber daquelas vidas, como faziam ali.

Já havia só burburinhos. Porque antes tudo fora intenso sofrer aos gritos, disseram-me. Num cruzar de entrevozes medonho, perturbado, incomodante e assustador. Tudo aos berros. Talvez que agora enfrentavam as coisas com mais cansaço ou resignação. As grades venciam, na perpetuidade surda. Matando todos os passados e devires. Garroteando tudo, os corpos e almas. Massacrando com dor até os inanimados panos de chão e coisas de mundo diário. A vida d’uma menstruação já saía presa. Inertes, os olhos já não esperavam ninguém. Todas sem visitas. Raríssimas perdições de olhares em busca; a tentar alcançar lá fora a rua. Mesmo com tão inútil um olho ou outro buscava. Até o rotineiro da funcionária guarda indo e vindo podia inusitar. Quem sabe um homem bonito. O estéril do pequeno visual da saída da cela, conforme os espíritos, relembrava um momento de liberdade vivido ou matava mais. Mas aos poucos e aos dias tudo desvanecendo.

Num ensaboar de roupas e mãos veio um sol e esquentou os meus olhos. Na roupa um rio pequeno e bonito. No outro lado dele umas moitas grandes até a se afogar. Por baixo daqueles matos peixes grandes escondidos, ao escuro e à fresca. A prancha enorme e tábua de bater entrando na água, apoiada ao fundo na areia. O cheiro forte da água limpa. O fundo se mexendo fazendo cosquinha nos meus pés. Procurei perdurar. Uma voz intrusa perguntou-me aonde eu estava.

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