O brasileiro não conhece o Brasil mas forçado se mistura nas prisões; em que cada carceragem é um monturo de êxodos desiguais pelos corpos e caminhos afora. Entramos na primeira muralha, a da estreia, desconfiados e matreiros feito caboclos selvagens, todos geralmente medrosos do alheio. É preciso antes e sempre se adaptar ao meio, formando uma capa na alma mais ou menos parecida ou igual. Um lugar muito distante ou visto inferior pode ser degradador de origem e assim de pessoa. Eu vim de Piripiri ninguém fala isso, a não ser num verso popular de alguém anônimo, Baixa da Égua também não. Nasci no bairro Perpétuo Socorro, nome de morro difícil de se ouvir. Zinco e Buraco da Lacraia, dois nomes de favelas exóticos e atraentes, ambas no Rio de Janeiro. Tenho uma amiga de roça que já morou nos Estados Unidos trabalhadora ilegal, mas que não sabe nada sobre cidades brasileiras; rodou* lá num repente de polícia porque criminosa; foi deportada de volta para a vila insignificante, pobre e desconhecida aonde nasceu e mora.

Do território brasileiro só escutamos e vemos do litoral, ou então de algum lugar inusitado, esporádico e estranho; assim mesmo porque a mídia divulga, em notícias boas ou ruins; o resto é desconhecido. Nalgumas citações amigas e tentativa de se localizar na origem, não adianta falar gentílicos, a cabeça que ouve não atina, falta-nos um mínimo de atlas mental que nos situe no mundo. Às vezes e muitas, joga-se pela boca um incerto e genérico “interior” ou “roça” e pronto; a livrar-nos da chatice e cansaço pela ignorância do outro. Por outras, nem o do próprio lugar sabe direito e até quase nada ou nada de onde veio e nasceu. Um grão de geográfico e história é inalcançável. “Minha mãe diz que eu vim de um lá que não sabe aonde fica; nem lembra mais de onde ela mesma nasceu, quer dizer, pelo menos o nome; vagamente e incerta fala de umas canoas e tiros, e que comia restos de chão de feira aos domingos”.

Por mais juntos, porque misturados forçados numa cela botando gente pelo ladrão, mesmo assim nos desconhecemos pelos preconceitos, inibições e medos, mas sobretudo pela desinformação e falta do saber. Se fortes e corajosos nos rompêssemos do imperialismo social em que vivemos, cresceríamos pela troca e circulação de conhecimentos, e aconteceria a posse de grandezas e de coisas distantes ou negadas mas por natureza nossas; quem sabe já um pouco senhores de si, o que ainda não somos.

Rodar: cair nas mãos da polícia, no jargão do crime e do povo de baixo estrato social no Rio de Janeiro.

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