( Baixe gratuita a crônica da capa acima, presente no final do blog ).

Num finalzinho de tarde, um preso especial mandou-me em surpresa suculento prato de sopa cheio até a borda. Na pressa de ir embora, sair da carceragem e da prisão, pois já acabáramos o serviço escolar daquele dia, dispensei a iguaria ofertada repassando-a para duas bocas de internos famintos. O prato de sopa não comido me engasgou na garganta da alma, me acompanhando pelo resto da vida. E vou dizer por quê. Numa rotineira manhã, depois de passar pelos trâmites da portaria em inspeção de corpo e de coisas, o vasto fedorento e enlameado pátio encarcerador se abriu ao nosso olhar; estávamos na cadeia Plácido Sá Carvalho. Sem que jamais esperasse um grito me chamou: “professor! professor!”, dizia a voz firme. Sentindo que eu não o identificava o interno situou-me dizendo seu nome, e que havíamos nos conhecido no cofre de guardar humano chamado de Bangu I, a prisão dos ditos à época os mais perigosos do crime. Congratulamo-nos alegremente. Ele da tranca mais fechada fora transferido para uma prisão semiaberta, como num salto grandioso rumo à liberdade. E assim logo depois dos abraços, trocas de olhares e afetos, fui pôr-me às obrigações escolares rotineiras e de costume, dar aula ou ensinar.

Nos dias seguintes passamos a nos cumprimentar alegremente, num momento de felicidade pela troca de muralhas e mais ainda por nos vermos. Eu sempre tinha que passar meio abaixado e de lado por uma cerca de arame farpado, para alcançar o interno com história de muito perigoso. Seu corpo atlético e moreno talvez já amedrontasse, porém falava de modo bem pausado e sempre cordial. Passados dias, mudamos naturalmente e nos cumprimentávamos alegres de longe, já sem o trabalhoso e inseguro pulo de cerca, com ele sinceramente muito mais feliz do que eu. Nossos encontros ocorriam sempre no início da tarde, pois eu professor já vinha de outra cadeia, inimiga porque de outra facção, onde também lecionava. E se mais não bastasse trazia a fala das outras grades comigo. Assim ele o preso amigo do Terceiro Comando, porém a cabeça do professor que era eu, carregada intensa de só Comando Vermelho, facções diferentes e rivais. Aqui vem as trincheiras inimigas. Aos cumprimentos amigos, minha boca de professor quase sempre detonava um saudoso e incontido “nós”, mote identificador e talvez único do Comando Vermelho. Ao que escapulido o pronome não havia como endireitar. Por outra também, eu me indagava por que o já falado “nós” tinha que ser censurado ali nos cumprimentos. A cabeça do professor raciocinava: nós, pronome da primeira pessoa no plural, significando muito e antes comunhão; então não haveria por que silenciá-lo por uma certa censura de momento. Estávamos ali e éramos nós, duas pessoas amigas se falando. Houve momentos, em que o preso buscou demolir a linha demarcada entre as duas facções inimigas, mas não conseguiu.

Voltemos ao prato de sopa. No dia seguinte ao da oferta apetitosa ainda não, porém aos poucos fui percebendo uma nesga de silêncio e distanciamento no ar. O presenteador da sopa ficara ressentido com a minha falta de consideração ao não saboreá-la. Soubera então que eu não degustara o ofertado. A partir disso nossa amizade esfriou um pouco, ficamos mais distantes. Em mim professor, deu-me um arrependimento glutão por ter perdido suculento prato; logo também misturado a um certo desconfio, talvez infundado, de que poderia haver veneno mortal nas carnes e legumes. Fiquei num caroço irresolvido interior. Do amigo e suspeito preso do Terceiro Comando, percebi que ele sentira por trás de tudo, uma posição inimiga do mestre amigo ao não saborear a sopa. Ele e eu nunca desenrolamos isso numa linguagem bandida; o irresolvido se eternizou.

Transcorridos meses, eu professor já fora da cadeia do Terceiro, inimiga do Comando Vermelho, soube a notícia de que o preso do incompreendido “nós” já na liberdade fora assassinado. Tendo rodado e então caído nas mãos da polícia, esta vendeu-o a mãos inimigas, e assim morto. Que por vezes, no secreto do quase nunca contado, na guerra social urbana em que vivemos no Brasil, os agentes da lei sequestram pessoas e expoliam dinheiro do crime, como também mercadejam vidas.

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