À memória do condenado Fiódor Dostoiéski, que redescobriu a vida na prisão.

Encontrei pedreiros, eletricistas, pintores e até um excelente fazedor de casacos, toucas e luvas tudo em tricô; este último raríssimo em nossa população masculina machista; e tantos outros mais escondidos, desconhecidos de todos em nossa cada vez maior população carcerária. Estão lá sempre a ver navios. Desperdiça-se e matasse a intensa e infindável força de trabalho, que poderia gerar mais vida, capital e quem sabe num futuro próximo sustentar economicamente o próprio sistema carcerário nacional brasileiro. Hoje os nossos presos não fazem nada, num inferno de ociosidade obrigatória diária. Entrando em nosso assunto aqui principal, poderíamos sem grandes alardes, projeções grandiosas e arquiteturas antecipadas definitivas, isto é, sem um modelo prévio já pronto; ao início com pequenas experimentações locais num também aprendizado, ir montando e pondo em execução e produção estruturas de trabalho com micros-fábricas e prestação de serviços dentro das muralhas prisionais. Aliás até como já existe e dá certo. Pois conheci a Penitenciária-Industrial Esmeraldino Bandeira no Rio de Janeiro, e passando por sua frente todos os dias durante dez anos, nunca vi ou ouvi histórias e boatos de distúrbios, rebeliões e fugas de dentro dela. Na paisagem da estrada de acesso às prisões, a Esmeraldino Bandeira era um único oásis, se assim se pode dizer, dentro daquele amontoado de infernos dantescos prisionais. Um único depoimento positivo e me bastou ele, para fornecer excelente prova de que se pode mudar. Assim disse-me o preso em tom reclamante naquela manhã que o conheci: “veja só professor, eu até ontem, estando aqui do lado na Esmeraldino Bandeira, levantava de manhã sentindo-me útil, cheio de vida e feliz a mim mesmo e ao mundo, pois logo depois do café da manhã dirigia-me ao meu setor de trabalho, uma confeitaria e fábrica de pães e produzia o dia inteiro; e assim este passando leve e esquecido das agruras de preso, cada vez mais eu crescia em mim mesmo. Por momentos até esquecia totalmente que estava em uma prisão e quem eu era. À noite, quase sempre conciliado por dentro por mais um dia de trabalho realizado, o sono me chegava sem grandes torturas das lembranças passadas. Além de que, minha alma descansava por um dia seguinte de laboriosa vida, pois meu setor de trabalho me esperava. Por vezes, me peguei feliz já pensando em lá fora junto da minha família, ela alimentada pela ação e suor saídos de mim, num trabalho legal porque dentro da lei. Outra vida bem diferente me esperava. Já sonhava até em viajar e rever o lugar aonde nasci e me criei lá no Nordeste. Nos dias de visita eu já estava ficando outro, dizia-me minha mulher. A alma de um homem inserido na vida renascia em mim. Daqui só pra felicidade eu me pensava. Num arroubo até projetava meus filhos estudados já adultos e trabalhando. A vida ainda podia ser feliz e sem mágoas passadas. Quer saber professor, meu corpo até mudou, fiquei mais robusto e forte trabalhando, já bem fora daquela figura magra, com aparência negativa e perigosa que eu até então tinha. Não é só o trabalho que transforma, mas também o sentimento de ser útil no mundo que ele traz, e assim junto a possibilidade de ser feliz, que por si só já é um nobre sentimento. Confesso, até outras aptidões que eu já esquecera e largadas de mim pela vida, rebrotaram. O garrote sufocante de prisão, que nos aperta e mata aos poucos aqui dentro, foi perdendo fôlego. Eu creio, que ao relatar isso estou na lógica da vida. Mas veja só mestre, de um dia para o outro tudo desmoronou. Até ontem o mundo pra mim era um, hoje é um outro, não só bem diferente mas o seu oposto. De trabalhador virei um ociosos bandido e assim um pária social como dizem lá fora. Aqui ao lado na Penitenciária Esmeraldino Bandeira eu estava em regime fechado. Agora, jogado pela lei nessa prisão semiaberta rumo à liberdade, estou obrigado a viver novamente o inferno e toda desesperança futura, como a dizerem-me: você, apesar de tudo não passa ainda de um reles e perigoso interno penitenciário; repondo toda minha carga de ex-presidiário que viverei lá fora a vida inteira. Aonde estamos agora não poderia ser igual a aqui do lado? E este só separado por uma muralha, e assim todos como o senhor vê, todos de nós aqui ociosos e sujos, andando como moscas de lá para cá o dia inteiro, dentro desse enlameado de chão, como se afinal fôssemos só uns porcos ou vermes, coisa assim. A oposição e negação de mundos é só uma muralha que nos separa. Aqui do lado uma escola de vida e aonde estamos, a Plácido Sá Carvalho, uma escola e corredor da morte. Mata-se verdadeiro o bandido quando o repõem à vida, ao social, também humano que ele é. Ainda não descobri qual é o objetivo desse nosso sistema carcerário ser assim, condenando vidas a viverem na morte; nesse caso não só o preso mas todos os familiares seus. Infelizmente professor, muitas infâncias estão sempre sendo preparadas, para num futuro próximo gastarem ou consumirem suas vidas por aqui. De mim mesmo não lamento, mas só não entendo como o tão fácil não é. Pois ao se agir e ir colocando espaços de trabalho nas prisões, num passar de tempo o próprio conceito tão negativo do nome bandido começaria a mudar, os braços sociais lá de fora não estariam tão fechados como estão; encontraríamos mais inserção social matando até algum banditismo que em alguns de nós restaria. Matar bandido não precisaria de armas letais. As fábricas do crime que são nossas prisões hoje, seriam outras fábricas. Veja minha história como estou contando, ontem me sentia um trabalhador, hoje um reles interno. Não poderia ser o contrário? A diferença é só um muro, como já disse. Acho que a força desse muro é imensa, porque nunca ao menos ouvi alguém dizer que poderíamos derrubá-lo. O muro talvez maior da nossa separação”. E o relato do preso parou por aqui. Olha que ele me fez ver o muro que até então eu nunca enxergara, mesmo também esse muro passando por dentro de mim.

Voltemos agora nós, eu e vocês leitores. Se objetarem que mesmo assim o crime continuaria, a nossa intenção, a minha e a do preso do relato, não é nunca nem poderia ser tornar esse mundo só de santidade, o que seria uma grossa falácia. Se há uma coisa central, como há, é mudarmos a realidade e objetivo das nossas prisões como fábricas só de mais bandidos, e passarmos a produzir vidas habilitadas à cidadania. Nesse sistema de produção os espaços sociais também mudariam, como a família e o trabalho. Até nossa religião melhoraria, deixando de ser tão delinquente como infelizmente ela é hoje. Os altos gastos de governo, estes vindos do sangue da população em geral, atualmente em bilhões de reais anuais, não seriam tão pesados. Até também concluindo desses gastos públicos, que há uma condenação perpétua da população que paga pelo que não é. O não-crime arca com todas as despesas do crime, aqui talvez já um outro crime ou um aprofundamento daquele. O real social nosso seria bem outro com a inversão das prisões, outras verdades em nós mesmos nasceriam. Podíamos pagar para ver.

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