Segunda bem manhã os tiros me levantam da cama. Imagino logo em dizer os estrondos; as séries marcáveis, as rajadas e os que saem a esmo. Mais um pouco de sentir e ouvir, pergunto se dariam pelo menos uma valsa. Não. Venho logo na mesa tentar escrever. Falta o motivo ou esteio pra contar a história, desses estampidos de acordar.

As casas. É preciso acertar quem de lá, delas ou de cada beco qualquer. O governador de Estado brasileiro manda toda hora matar, mais e mais e muito mais. Eu penso em tirar um silêncio mas os tiros não deixam. A vida de quem está no poder pinta cada vez mais mortes e intensa repressão. O dedo da polícia aperta e mata, configura o horrível nas cores da Dor. Cada arma com farda faz seu risco executor mortífero na tela da vida, que o alto do comando mandou. A imagem de um quadro Goya: Os Fuzilamentos de Três de Maio. Do homem em pé braços abertos, em pergunta de por que, clamando eternamente por um Não. As armas nunca lhe ouvem. A vida na favela entrou assim numa tela, pintada pelo espanhol e não por mim. Os tiros atravessam em meu corpo longe, sem me atingir. Melhor, matam-me, também sou gente. Por baixo no asfalto pelo trânsito a cidade segue. Parece que nem nada se deu. Só um fato a contar do tiroteio no morro, a chapa por lá esquentou. A crônica oral pelas bocas momentânea documenta. Nada ela pinta de novo porque não se pode mudar.

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