À memória ainda que tão póstuma de Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho; querido parceiro de prisão em Bangu III e eterno de coração.

A sala de aula estava escura, sem que eu me desse professor pelo que já ocorria, que aliás inconsciente eu contribuíra para tal. Havia uma roda de homens e todos sentados. As conversas e interesses longe, giravam e corriam fundo para outros cantos, becos e bocas, e nunca jamais para o didático escolar imposto. Planos e planos, quadrilhas e quadrilhas. O mundo naquele ermo de mundo só nosso mundo; o das confabulações favelares. E professor, eu ali como um patrocinador daquela espécie de aula magna; que nem sentado eu ficava como ao proteger o redor, caso a polícia chegasse. E todos fluíam na grande quadrilha nossa. Meu parceiro mais próximo “dono” famoso de morro também ali; nós, eu e ele, já meio família cá fora em quase compadrio parental. Num instante chegou mais um bandido à sala, que não me conhecia ainda. A estranheza do meu rosto professor o assustou, o tal chegante, dando-lhe recuos de inseguro e de fuga; quem sabe eu polícia poderia prendê-lo, bandido mesmo que ele era. Aí, o chegado à porta da sala balbuciou algo em medroso de voz ao meu mais parceiro o Marcinho, olhando-me num soslaio de defesa e de ataque mesmo sem fuzil ali. Meu corpo não esboçou defesa, o meio já me era o natural de mundo para mim. Muito periculoso eu já estava. Então, no caroço do encontro meu compadre parceiro pôs a colher inteligente da voz e sentenciou descaroçando, resolvendo tudo: “chega aí parcero! Nóis!” – No mote supremo da facção vermelha. Ao que o bandido recém-chegado se desarmou, e mais um na quadrilha da aula se fez, se somou.

Cá fora na carona da rua vindo pra casa, eu exclamava feliz à namorada professora: “estudei estudei pra agora terminar assim, bandido!” E lhe insuflava alegre o mote da facção aos ouvidos: “nóis!” Sua reação em doce repulsa de mulher religiosa me excitava, pondo nossos desejos mais gostosos no banco do seu carro. Talvez assim que ela fosse também bandida, casada com outro homem que era.

E lá no intenso daquele passe quadrilha na sala de aula, e no sagrado mote bandido do meu parceiro do “nóis”, meu sangue fora aceito vermelho.

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