A prisão é muito mais que a prisão; são também as favelas, as periferias, os buracos com gente, os esgotos-moradia.

Hoje vejo tão mais claro, algo que só a vida ao me pôr no crime passei a enxergar, a ver. Naqueles tempos do eu sozinho professor na carceragem por causa da repressão, amigos do crime propunham-me, em oportunidades ou tentativas de ocasião, a que eu me colocasse como um certo diplomata ou agente arranjador, para possíveis reuniões de diálogo dos presos com autoridades. Pela falta de aptidão quase sempre eu falhava, ou talvez nada acontecendo por um certo descaso inteligente e racional meu. Mas eles do crime não se cansavam de solicitar-me. Lógico que os internos penitenciários, seriam representados pelos seus líderes em comissão. As poucas tentativas nossas, muito poucas, quase sempre foram em vão. Uma só reunião, em encontro da direção da prisão com os líderes do coletivo interno, vingou. Assim mesmo, a tal reunião, destruída ao meio pelos devaneios loucos da nossa diretora escolar, no calor das falas. Em suma, mesmo nesse único encontro não houve frutos a colher. Sendo a única coisa de positivo que verifiquei aos olhos e ouvidos, foi a voz da verdade dos meus amigos do crime.

Somados todos esses momentos e planejamentos em conjunto hoje, ficou-me a verificação da disposição dos presos, dos encarcerados e tal, sempre ao diálogo. Até também porque, marcar isto bem aqui, que nós encarcerados, pela nossa própria situação de encarcerados, estamos fora de toda e qualquer estrutura política e social de diálogo, entre nós que também somos povo e os poderes. Se estas estruturas são mentirosas ou não, assunto para outros espaços. Voltemos. Além das disposições coletivas dos presos ao diálogo, eu via e ouvia os níveis de respeito das suas falas e gestos. Mas não adiantava, nunca fluía.

Hoje verifico, que por estarmos no crime, portanto fora a não ser a grades, de qualquer mecanismo de diálogo e controle, tais como eleições e todos os outros caminhos burocráticos de requerimento, esta situação nos isola de tudo, inclusive da mentira oficial. E este isolamento possui dois pontos: um de isolar mesmo, e o outro, de por estarmos fora dos mecanismos implantados como já dito, entre o poder e nós, torna inviável manipulações, produzindo campos de real perigo. Por isso e um pouco mais, diretores penitenciários tombaram na vida com muitos tiros certeiros; tiros de justiça e de alerta.

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