“Dependo do preso para ter o meu salário”, disse-me o guarda da prisão num momento de desafogo. Eu mesmo, bandido e professor, também estava ali por uns reais a mais no meu pagamento mensal. Nós, realidades parasitas do Bem, na figura máxima de cada diretor prisional, indo fora dos muros até as personas do cérebro parasitário do poder. Existe um mega superfaturamento de ganho; pois quarenta e dois por cento da população encarcerada brasileira, nem passou ainda por tribunais de julgamento, numa pré-condenação lucrativa monetária para o Bem do ao redor. Eles do legal, da justiça justa, necessitam de ganhos dinheiros sempre mais, muito mais. A figura e a realidade do preso deixaram de ser e representar acertos sociais e humanos, hoje sendo importantes fontes de fortunas alheias; como um carvão em brasa preparando deliciosa carne para alguém. Por assim então, parte da população geral necessita ser queimada, não por exigência, mas pela própria natureza de mundo.

Depois de anos também me cansei, vendo que tudo era inútil. Só nos salvando a consciência de que estávamos ali juntos e amigos, eu professor e os bandidos, mas eternamente presos. Não havia e não há como se soltar. Noções e passagens de tempo são também grades; o espaço, o quadrado de cada um. Como um preso já bastante exausto eu queria sair dali; um ser que não funciona mais; um do crime muito velho, sem força de empunhar mais a arma. E não existe criminoso aposentado; futuro e descanso só para os que trabalham. Velho e cansado, a rotina do hábito gasto me dominou, me enchendo de realidades mortas, com total falta de sentido antecipado, qual um preso que sai da prisão sem horizonte de mundo. A vida continua mas já acabou, está morta. Os gostos e os gestos perdidos não voltam mais, nunca mais.

Solto cá fora perdi o mundo que antes foi ou parecia meu. Agora e daqui pra frente nunca mais; como num compasso de dança que se perdeu, no ritmo de pé que se atrasou. Mesmo eu só professor, mas por entrar na valsa bandida, o mundo me negou de vez, para nunca mais voltar.

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