
O dinheiro se posa hoje como justiça e como a grande felicidade; nesta inclusive a eterna, o céu.
Por dentro das grades mãos abriam ou fechavam cadeados, para que eu entrasse ou saísse, me locomovesse. Que na prisão ambos os gestos de abrir e de fechar são a mesma coisa, prendem. Por hábito meus olhos passavam pelas mãos dos guardas. Mãos que quase sempre não eram silenciosas, me diziam algo, por vezes até gritavam. Umas tentavam o tempo todo por meio de falsa coragem esconder seus infernos; o inferno do corpo o qual pertenciam. Mesmo na rotina as coisas continuavam, existiam, só que escondidas ou disfarçadas pela máscara da mecânica da ação. Mas não são de mãos que desejamos falar aqui. Ao passar dos anos as coisas mudavam, tanto para eles guardas como para nós os prisioneiros. Falo aqui principalmente dos guardas batedores de cadeados, daqueles condenados às ações e labutas diárias no miolo das carceragens. Mesmo com a cor rígida dos uniformes as anomalias e medos apareciam.
Agora aqui fora já aos doze anos da nossa liberdade, a guerra urbana se intensificou e se intensifica cada vez mais. E tudo na máscara da falsa ordem do bem viver democrático, na ética das mãos que mandam mas não sofrem nada desse inferno. Assim a guerra, a nossa guerra urbana, que é preciso haver uma enquanto houver classes, começa e passa de quando vemos um polícia e o percebemos o inimigo imediato número um. Nas favelas ou comunidades, vestiu farda de qualquer simples vigilância já é persona non grata. Por mais, como em qualquer guerra é inferno dos dois lados. No nosso, de pessoas comuns condenadas às subvidas, o sentimento de todas as perdas, até a espera inconsciente ou não de uma morte no supetão, num tiro dado pela lei. No lado deles, dos polícias que nos caçam e nos matam, as neuroses doentias da guerra, nos horrores também de que a qualquer momento podem morrer, como morrem. Sabendo aqui que quem promove e alimenta essa guerra, essa toda nossa carnificina histórica, jamais estará no meio dela, ao menos escutar um único tiro amedrontador próximo. São os nossos eternos verdugos de plantão.



Deixe uma resposta
Want to join the discussion?Feel free to contribute!