
Comecei me borrando nas calças nos primeiros dias. Só existimos inteiros e nunca aos pedaços. Todos os meus horrores comigo me fazendo total. Sabíamos de fora e sempre que eram todos maléficos e infiéis bandidos; de que qualquer um podia nos atacar, nos seviciar a um crime qualquer, enfim nos ludibriar e vencer. Ainda então minha cabeça e pernas andavam sempre prontas, preparadas, mesmo numa tranquila aula na escola no miolo da carceragem. Pois num momento qualquer imprevisto a cadeia podia virar, ou seja, num assalto ser tomada e cair total nas mãos dos internos. O lance então era, num desconfio qualquer, não importando se verdadeiro ou falso, sair disfarçando da carceragem mas quase correndo, num fio de vida ou de morte. Porém com tudo de medo e dos horrores fui caindo no meio deles. Os medos de fora, da vida, ainda persistindo. Até eu descobrir meio que tardio ou à frente, que algo profundo e sincero acontecera em mim. Fui soltando minha voz.
Muito ainda antes de estar mais do que só na prisão mas no meio deles, doenças alimentadas por mim mesmo estragavam meus dias, me infernizavam. Ao intuir à distância que algo poderia me acontecer ou não acontecer, uma fragilidade de criança indefesa me aparecia. Mirando alguém na rua ou num lugar qualquer, eu tinha fortes estados, sensações, de que tal pessoa que nem sequer me olhava nem me conhecia, podia fazer uma forte judiaria violenta comigo, tanto me bater indefeso como me estuprar violento sem que minha boca dissesse não. Depois vinha um enorme sentimento de intensa culpa, um alongamento do inferno sentido; minhas neuroses. Massacrado, domesticado e educado para só obedecer calado sempre assentindo com tudo, formei-me um doente mental vencido. Meu horror aumentava porque nunca eu sabia de onde vinha aquilo e porque vinha; invencível, não tinha como fugir ou segurar a coisa. Quanto mais eu tentava combater o mal infernal do desprazer mais ele surgia, se reforçava.
Na carceragem da prisão fui encontrando o meu oásis. À medida que fui me entregando nas relações e me misturando mais, eu não me lembrava de fora; mais, o de fora era um e o de dentro das grades outro. Consciente, fui descobrindo que quanto mais misturado ao dito mal bandido, mais meus medos mórbidos, doentios e torturadores, não estavam comigo, desarmados por um outro mundo, o dos já meus amigos e parceiros do crime. De um contexto social eu pulava diário para outro. Então, me vinha a constatação de quanto mais misturado, contrariamente os medos doentios sumiam. Havia como há uma produção externa; começando talvez pelas pesadas mãos de pai e de mãe, nas agressões, surras e torturas, completamente implacáveis sem ter como fugir; aonde os adultos nunca nos escutam as súplicas, assentados nas mãos de um Deus eternamente castigador. Os sintomas de infância torturada só me apareceram adulto, quase vinte anos depois. Amenizar o sentimento canceroso de culpa me custaram de três a quatro décadas de vida. Mínimo mas ainda a neurose mórbida me possui, apodrecerá comigo no cemitério; quem sabe chegará dentro do meu espírito até no paraíso, se houver esta ilusão. Só o mundo vivente das grades na prisão me tirava e me aliviava feliz do mundo de fora.



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