
Mesmo bêbado eu ainda penso, ou penso mais.
A condição favelar avançou; favela agora não é só no morro, mas no asfalto periférico distante também. Famílias se comprimem num mesmo espaço terreno de herança, ou invasão consentida. Sobem aumentando uma casa primeira em dois ou três andares antes não planejados; conforme o número de corpos em crescente como num clã. Com cada novo Eu mais um espaço se carece e se põe. Ou ainda se comprimem, se conjugam, se apertam em miúdos ajeitos horizontais, criando e recriando geometrias arquitetônicas inimagináveis, por vezes sem decifração ao nosso grau de entendimento. Alguns cubículos lembram caixote. Horizontes mudando, o que se via antes, a rua de frente, o céu, as estrelas, não se vê mais. Isto diante e por causa de tantos apertos, labirintos de paredes e de tetos baixos; estes cada vez mais baixos. Antes não há o que se pensar, ao que se poderia ser e não se é; o teto baixo e a parede que comprime nunca deixam espaço. Os apertos e caixotes são mentais. O futuro jamais outro futuro além deste presente. Presente como tempo e como preciosa dádiva. O sonho da casa própria num cubículo de vida inteira. Minha casa, minha vida. O céu um pedaço de chão sempre ansiado, terra também sempre prometida.



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