Na prisão Dostoiévski talvez tomasse um único banho por ano, se tanto. E nós estávamos no frio junto da montanha de Gericinó. O boi* muito úmido ficava gelado de dar horror. Entrar nele produzia adiações, pensamentos e torturas por horas e muitas horas. Os mais sensatos e espertos iam logo bem de manhã cedo; muito antes de pagarem o horrível desjejum; nunca vi um líquido preto tão purgante como aquele e ainda chamado de café. Voltemos ao gelado do banho no boi. Antes e junto também dizer que macho brasileiro tem medo de água fria. Hoje, onze anos depois de lá já liberto, toda vez que num dia frio vou ao banho, meu box me lembra aos ouvidos dos terrores das águas frias nos dias de Gericinó. Mijar à noite era em garrafas pet de dois litros, o penico de preso e de muita gente aqui de fora. Metade da população brasileira não tem banheiro nem boi, faz num mato ou canto de muro. No verão na prisão a água revigorava, no inverno torturava.

Boi: lugar dos banhos e das defecações, na fala ou jargão penitenciário da Cidade do Rio de Janeiro.

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