A voz já me esperava incontida na tabacaria; queria porque queria falar, desembuchar, pôr ao mundo tudo que precisava dizer. Acho que só ansiava por mim, pelo e por causa do assunto a jogar para fora, a escorrer ao mundo, muito mais, gritar. Eis enfim o que disse, ao quase nem me esperar sentar. “O preso Elias Maluco foi morto, não se suicidou”; colocando o Sidcley quem me falava nítida firmeza de alta convicção na voz. Objetei-lhe em ato, embora fracamente, que não, que poderia mesmo ser suicídio, lembrando-me do meu cosmo de vida nas carceragens. Mas mesmo assim, eu e meu amigo de fumaças e tabacos continuamos num certo disse-me-disse, afirma e afirma; além do que soçobrou-me ele aos ouvidos: a Polícia Federal tomara conta do caso Elias; a saber então o que na verdade acontecera, se suicídio ou acerto de bandidagem nas grades. Ainda que, continuou o amigo a completar, deixou cartas e apontamentos escritos tão sentimentais à família e ao mundo, que sinto como provas sinceras de não suicídio. A minúscula literatura mais prova de vida, de desejo de vida, do que de morte.

Depois, no ônibus pra casa, não só o Elias mas a parte mais evidente da bandidagem do crime, passou a perseguir-me aos ouvidos interiores de dentro, de bem de dentro de mim. Levantou-se um Everest escondido, negado. Intrigado e ferido, num certo tempo comecei a pensar histórias; o que não diriam, ou melhor diriam muito ao mundo, biografias de líderes do crime e facções. Escrevo e digo isto por encontrar desejos fora do crime, desejos de saber e admirações. Nisto, neste saber, muito nos conscientizaria de coisas. Meu próprio amigo de tabacaria, ao questionar sobre a morte do Elias Maluco, no fundo quer saber a sua história, a do Elias. Que seria buscar respondermos a esta pergunta: por que estamos assim tão mortais conosco mesmo. Porém claro, este contar fora da perspectiva já muito falseante, estabelecida no discurso e olhar do Estado.

Pensar a bandidagem me levou a outros crimes e roubos. Me pensei no ônibus ao assento, que não cabe jamais em nosso cosmo estabelecido e permitido, toda e qualquer historicidade que não venha de cima para baixo. Que ninguém do povo pode ser história porque não é e não tem história. Que mesmo assim, caso tenha alguma, só pode ser narrada pelas letras e versão de quem está ou é alturas; únicos que podem ler e escrever, como também contar.

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