Há tempos tento contar uma crônica que não consigo; toda na cabeça mas não sai. Nela, mostrar nossa relação de presos e antigos presos com o sistema eleitoral brasileiro. Interno penitenciário não vota no Brasil, por perda automática e legal desse direito. Numa época, companheiros meus pediram que assim que eu saísse, ficasse fora das grades, me candidatasse a um cargo político; as comunidades me apoiariam votando em mim, disseram. O que eu recusei por saber de que nada adiantaria. Antes pela corja inimiga do povo na qual eu entraria; outra por ficar amordaçado aos poderes legais bitolados e estreitos. Assim, só recusei, sem esclarecer ninguém.

Adiante já fora das grades, outras ideias conscientes me nasceram. Enquanto alguns companheiros libertos se flagelavam muito, lutando para reaver o direito do voto, eu resolvi definitivamente não mais votar. E passei a meditar sobre o povo, obrigado a votar no único dia semanal do seu descanso, o domingo; as viagens e gastos custosos na data da eleição; a determinação pela lei do voto obrigatório; o crime do eleitor faltoso à urna e a multa; as manipulações eleitorais corruptas; e, enfim, o eleger no geral ladrões, quando os de sempre; ou quando novatos, ajustados pouco a pouco aos hábitos seculares da corrupção. Assim, sabemos que o direito de escolha da nação não existe. Somos um eterno Sísifo na lama.

Também percebemos, que não pode existir nenhuma estrutura de força que olhe e torne pública a realidade carcerária brasileira; somente o “direitos humanos” para disfarçar, enganar e justificar. Como também não pode haver, atuações sérias e verdadeiras no universo social das visitas carcerárias. Tudo isso fazendo do mundo prisional um sem esteio, sem apoio, numa determinação de eternidade histórica. Os aprisionados nunca podem falar só ouvir, e talvez o povo em geral também; relegados a este destino pelo Estado tão Leviatã.

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