Meus primeiros contatos diretos com o grande crime foi junto com telefones. Um pouco ampla, nossa escola na prisão Bangu III tinha bons banheiros para os alunos internos. Respeitoso, eu evitava usar o único banheiro destinado ao corpo docente de professores e professoras; pois saber dos íntimos das mulheres era como uma agressão vulgar e ignóbil, e assim eu utilizava o banheiro dos alunos. Ocorre, que na hora do nosso recreio escolar da tarde, sempre ao meu gesto de estar no fechado urinando, o lugar das necessidades, invadido rápido, ficava entupido de enorme cruzar de vozes diferentes aos telefones celulares. Cada qual com suas tonalidades, apegos sentimentais e às vezes lamúrias e grandes felicidades. No recato de nunca saber das familiaridades, dando sinais de aviso, eu começava a tossir mentiroso com o fim de só alertá-los, os internos afoitos. Lógico que por ali aonde estávamos, havia o melhor sinal de satélite da cadeia inteira; ou seja, o ouvir e o falar bem mais nítidos. Assim, a presença de um professor incauto só atrapalhava. Porém, por maiores barulhos de garganta, pés e descargas no vaso sanitário feitos por mim, no único afã de romper as muralhas da separação todos falavam com o bem distante, menos eu ali ao lado. O contato das vidas sendo o sublime momento para eles, com o satélite amigo diluindo o volume torturante de um não ter e um não ver.

Várias ocasiões de escuta se passavam; e meu corpo e alma se deslocavam inconfortáveis, buscando se acomodar no espaço escolar. Jamais seria eu que os atrapalharia. Ali, juntos naqueles iniciais momentos de cadeia, eu já estava favorável a qualquer fuga possível, mesmo que só aos instantes ouvidos de um salvador telefone celular. Então, não tendo outro jeito, antes comuniquei à nossa diretora escolar, que repassasse ao coletivo penitenciário minha decisão de não mais saber das vidas, que não me competiam. E que eu usando agora o banheiro das mestras, os falares, as intimidades, estariam na posição respeitosa merecida. A riqueza da vida passava e passa, por nossas relações criminosas mas livres.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *