Estou no ônibus que vem da Água Santa*. Num repente bem inesperado ouço grunhidos em forma de gritos, como de animal estranho desconhecido. Vejo que passageira ri em intenso escárnio, de alguém que se assustou dando um tranco descontrolado de corpo aos medos. Na busca de saber quem grunhiu animal, imagino brincadeira de estudante num ônibus que passou em sentido contrário ao nosso. Pois que berram na janela, para assustar os distraídos e dorminhocos do outro ônibus que cruza. A mulher em escárnio continuava ao jocoso de boca e de rosto. Ouço o barulho animal novamente, agora com identificação. Tinha algo de selvagem num grito de música alta e aguda, com toques de fundo de algum prazer. Mas mesmo assim um tempero em mistura estranhava. Eu ainda não sabia de quem era a boca, em dúvida de localização. Ao me virar meio que de lado no assento e para trás, um olhar de viés mórbido em rosto bem marcado, oferecia cortesia a alguém em forma de acomodação de bagagem, na finura de ajudar. É um louco pensei, descobrindo a garganta gritante animal. Seus movimentos se diziam desconexos aos dos passageiros comuns; não tinham marcas de civilidades cotidianas, as nossas; eram outras marcas. Sem perguntas tirou folhas de algum lugar e mostrou-as ao mundo. Estou saindo da prisão, disse. As páginas eram da soltura ou da liberdade; o documento atestatório do já agora ex-interno.

Vamos ao mais bem do muito bem. Ao ver as folhas bandidas mostradas, outro passageiro próximo disse garbosamente: eu já tive estas folhas também, puxei temporadas de prisão. O ápice do bem, foi que o garbosamente aflorado da boca ex-interna e assim ainda bandida, vinha com toques de vitória e formação; como quando um adulto reina superior gritando que completou seu grau universitário. Lauréis e lauréis. A cultura da igualdade mesmo em tão diferentes papéis, o acadêmico e o penitenciário. Pensando nisso assim, vejo que a estrutura prisional brasileira ocupou e cada vez ocupa mais o lugar de outra estrutura, esta a educacional, cada vez mais em mínguas.

Nota: Água Santa, bairro da Cidade do Rio de Janeiro, conhecido por sua enorme prisão.

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