( Avanços estes referidos ao episódio sangrento da madrugada de 24 de maio de 2022 na Vila Cruzeiro, como também aos anteriores a ele e aos demais que ainda estão por vir, na Cidade do Rio de Janeiro. )

Contar o quê agora se já morreram todos os que tinham que morrer. Nem lamentar, que seria clichê enfadonho, vulgar e inútil. Estamos avançando no aprendizado fundamental de nos matar e nos morrer. Aos poucos nos acostumando e nos aceitando cada vez mais quanto a isso: a banalidade do mal em caixões, corpos e cemitérios. O dia seguinte depois de tudo entra no campo confortável da rotina. Afinal todo mundo vai mesmo morrer um dia. O baque da perda vai ficando aceitável e então deixando de existir, quem sabe depois amável. Podendo ser que entremos em outro estágio de vida e de morte desconhecido. Podendo ser que num futuro próximo choremos de alegria e não mais de tristeza, numa simples e só animal inversão de valor e sentimento do estado de choro. Que as mães passarão ao desejo de chorar por seus filhos derrubados por tiros. Não só a polícia, mas todas as forças e formas de repressão serão sempre bem-vindas. Montes de cadáveres a suprema glória. As casas funerárias se regozijarão. Meninos aceitarão ansiantes o brilhante futuro promissor da morte certeira a tiros antes dos trinta. As balas nunca mais serão perdidas. Num céu, outra forma de controle de vida e de população vai nos chegando aos poucos, sem embates morais e religiosos cansativos e jamais resolvidos. Pelo tiro do confronto armado sempre será melhor; sem invocações falsas de Deus e tudo pela existência do Bem. Nada de um sujo de sangue que só um balde d’água nunca resolva, podendo ser de reuso ou mesmo suja. A calçada ou o piso da poça e do rio coalhado vermelho não têm memória; são frios, mesmo no escaldo do quente verão. Num ganho de mais vida, o marginal que morreu deixou inchada barriga de mãe, para que seu filho também ao morrer fuzilado afirme e moralize a existência da lei. A moça da gadanha e do capuz se regozija feliz.

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