Sem nada de documentação social com nomes sobrenomes e datas tudo de cabeça, só nas prisões que arranjam obrigatórias as coisas e os papéis. E estes às vezes errados ou falsificados por incertezas e desconhecimentos totais. Alguém preso pode não atinar certo e firme quem lhe gerou na barriga ou quem foi seu pai; como também nenhum dos dois. Não sabe qual dia e ano nasceu, por qual lugarejo ou buraco de mundo pôs os pés no chão. Vejo casos de tantas pessoas fora das prisões que nasceram por duas datas, quem sabe três, com documentos e vozes que atestam. Em famílias brasileiras há dúvidas atuais e centenárias de quem nasceu de quem, na incerteza imperando; com relações familiares mal formadas, em parentescos duvidosos e outros muitos acomodados pela vida. Posso ter tido mais ou menos irmãos. Uma prima que nem é minha prima; até porque ela mesma nem sabe de quem saiu, e foi criada por quem passou a ser sua mãe. A falta de se saber da origem parental pode surgir e permanecer, afinal não sei de qual útero saí. Tento esclarecer-me e aceitar como se leva a vida dessa maneira, pois aprendi da importância do sentimento parental na formação da personalidade. A identidade, a pessoa em si, e esta com os registros civis burocráticos que me sabem, me lembram e me provam ela mesma. Eu sou este assim. Nas prisões brasileiras existem setores de buscas e identificações tardias porque faltosas, de pessoas adultas. Presos chegam só com informações de memória, podendo ser imaginárias, de quem ele realmente é filho, pois pode nunca ter visto uma certidão de nascimento muito menos a sua. Na incerteza ou falta pode-se ter que inventar para existir. Milhares e milhares vagam no Brasil afora, totalmente negados sociais indignos de possíveis cidadanias. Nisto de falta de qualquer registro civil, as prisões funcionam por instituições de descobertas, verificações e atestamentos tardios. Passamos a ter a outorga básica e primordial dos direitos civis só nas grades prisionais. Solto na rua nunca fui cidadão. Socialmente assim já se nasce criminoso, só que na idade adulta. Penso nos que são descobertos sem nem um registro documental já cadáveres, os civilmente inexistentes, sem cidadania total. Pode também dar-se o caso como se dá, de um nome ser julgado no tribunal por outro nome.

Só fui ter alguma consciência dessa realidade social nossa geral nas vivências das prisões. Estas, pelas exigências burocráticas de segurança, expõem nossos atrasos perversos e lacunas.

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