Para T. Hobbes de Malmesbury, que me ensina a aprender sobre Estado.

“Olha professor, você tem que mudar o seu jeito de falar”; alerta-me meio que sorrindo um amigo, mas com olhos de reprovação diretos para mim. Sem saber do que se tratava, pois estávamos ao sabor de distraída conversa, olhei-o de volta balbuciando sons sem dizer palavras. Sentindo o meu não saber esclareceu corrigindo-me: “cuidado quando pronuncia a palavra penitenciária, que o cara aí do lado arregalou o maior olhão ao ouvir sua voz dizê-la”. Incontinente para esclarecer melhor, outra voz amiga na conversa, comunicou-nos que em relação às minhas atitudes conversando, outro dia teve que minimizar, explicando a um vizinho de mesa que me escutara, de que eu não era algum bandido perigoso, e sim só um professor que dera aulas nas prisões de Gericinó. Eu dizer por exemplo “quando eu estava na penitenciária”, assusta demais em alguns momentos, porque só remete a um significado já escrito acima, mas que repito novamente: ele é do crime. Ainda talvez também, meu jeito tão natural já e inconsciente de citar grades, cadeias e muralhas, torna minha fala verdadeira e íntima com celas, alas, galerias e espaços tenebrosos. Nem imagino quando menciono que grandes amigos ainda estão ou podem estar por lá, dentro daquelas carceragens.

No início me dava algum receio e cuidado à escuta ao redor. Houve casos principalmente em ônibus de afastamentos medrosos ou precavidos, eu podia periculoso roubar ou assaltar alguém. Ainda bem pior, de quem pronunciava “penitenciária” se esperasse tudo de ruim e de mal, de bandido que eu já fosse aos olhos de quem me via ao escutar-me. Numa ocasião bem longe das prisões e eu professor já aposentado, uma senhora ao me ver passou a olhar-me muito assustada, mostrando reconhecer-me, o que imaginei logo ser das cadeias. Porque também nem sei e nunca talvez saberei, o que produzia em quem não era preso, ao ouvir e constatar algum grande apego em relação a mim, com respeito e admiração, das vozes aprisionadas. Nós, eu e os bandidos éramos iguais, tanto que nos gostávamos muito hoje com intensas saudades.

“Ficará aqui um enorme vazio humano com a sua aposentadoria”, me dizia reclamante e sábia a professora penitenciária igual a mim. Mas eu sabia, que não era só a minha saída definitiva das grades a causa da tragédia, eu não era e não sou um professor apenas um homem, portanto condicionado ao sentimento humano. O desenlace trágico se dava como inevitável se deu, porque eram vidas desejantes e amigas que se separavam. O conceito só negativo da palavra bandido já fora destruído, nosso pacto social modelava outro mundo.

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