Em surpresa na entrada das prisões surgiu pequeno séquito de carros em destaque; diziam algo novo e por mim o único. As pessoas mesmo as distraídas e as que não sabiam como eu, puseram-se a olhar, na curiosidade que contamina em passe de mágica o ver. Os carros já entravam quase sem parar pelos guardas da identificação. Um ouvido em socorro me pôs a par: é o casamento do Elias Maluco. O caso dele ainda fervilhava no ar da cidade pelas mídias. Era o principal e grande condenado pela morte do jornalista Tim Lopes. As mídias mobilizaram a população em torno do caso. Houve à época muita tensão de discussões e silêncios. À boca quase pequena, na multidão das pessoas bem do povo, partilhava-se o segredo em modo de culpa, de que também o jornalista já morto não passava de um cheirador desenfreado de pó branco, a cocaína. Talvez que até a degustasse aos pratos cheios, diziam-me em piada alguns. Mas enfim o condenado Elias foi jogado na mais fechada das prisões: Bangu I, com casamento e tudo. Para nós da rua, aquele movimento do séquito para chegar à prisão foi algo de grandioso. O véu da noiva, ela sentada dentro do carro principal, presentificou a quebra de muralhas do mundo.

Quase vinte anos se passaram ao casório e condenação. E nós em grupo na Tabacaria Africana, nas conversas ao acaso das bocas e dos ouvidos pedintes. Chegamos ao Elias pelos degraus de interesse da relação: cadeias, favelas, vidas de bandidos e lances de comunidade. Foi então que do casamento já bem longínquo, um saber se acoplou em mim amadurecendo ideias. O escore de condenação do júri no caso do Elias foi um apertado quatro a três, disse-nos advogado amigo. Inclusive, continuou ele, mesmo assim porque a TV Globo ficou em cima, na pressão. Esclarecendo-nos este fato do escore, narrado pelo doutor amigo, que houvera interesses a mais para condenar. Interesses os quais, adiante escrevemos o que dissemos no vaguear das baforadas.

Lembrei-nos de que entre as mídias e as drogas existe uma conexão de mercado; ou seja, vontades e fornecedores. E para não nos gerarmos mais preconceitos injustos, disse-nos, que os profissionais da informação trabalham embaixo de alta pressão na máquina de produção, às vezes aos ilimites de quase inferno. A vida exige escapes. Mas um desnude sobre isso e tudo que possa acontecer por ele, não pode vir jamais aos nossos olhos a furo. O mundo das mídias tem que se mostrar face ilibada, pura, sem gota mínima de qualquer mistura. Jornalistas não fumam nem cheiram, só noticiam, no cânone da informação. E talvez por levar esse cânone tão ao máximo, fez-se do Tim morto o escape de algo por um buraco da vida. Buraco esse tapado às pressas e sob alta pressão, pelo escore da condenação do Elias, naquele apertado quatro a três do júri.

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Notas do autor:

Homicídio: 5 votos pela condenação, 2 votos contra.

Formação de quadrilha: 4 votos pela condenação, 3 contra.

Ocultação de cadáver: 4 votos pela condenação, 3 contra.

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