Nunca permitir o preso trabalhar faz parte da condenação, e assim da justiça.

Em minha década de carceragem algo nos matava incessante, sem voltas e denso. Todas as manhãs nos levantamos, nós presos, sem ter o que fazer. Mundo feito para matar não só os horizontes, mas também secar a fonte deles; fonte que todo corpo vivo possui. Sendo o inventar, o ter o que fazer, o próprio exercício da vida que se confunde com ela, é ela mesma. Um bebê fazendo e descobrindo suas primeiras artes, desde começar a mexer suas perninhas e mãozinhas, e logo depois pegar os primeiros objetos à mão, é a arte primordial da vida; que depois e em todos os seus depois, viver é crescer e perpetuar este estágio natal, de quando éramos todos bebês. Assim, não se poder realizar nada, ou seja, fazer alguma coisa que nos cresça ou pelo menos nos mantenha, é a morte de todo movimento vital. Todo homem ou mulher que entra numa carceragem para ficar nela, cai num processo de inanição físico e mental. Pois, mais do que nunca não poder ter o que fazer, a vida ou a morte carcerária vai nos apagando os olhares imediatos e aos futuros. O ócio obrigatório carcerário é uma pena capital; matando deixando viver só de uma certa maneira. Realizando o tempo todo a morte por afogamento pelo ócio, ócio obrigatório repetimos nós. Na contramão profunda da vida, mantendo em estado de morto corpos que só nasceram para viver.

Escrito depois:

Quando falo em trabalho para o preso, falo em trabalho produtivo de livre escolha e vontade; e nunca trabalhos forçados como já existiram nas prisões siberianas russas, e que quase certo ainda existem, como um castigo a mais para o preso. Porém para nós, socializar antes de tudo e sempre.

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