
Por todas as manhãs os tiros. Helicóptero quase sempre, ameaçador. Sirenes das patrulhinhas rotinas já bem perenes, em que o não ouvir tornou-se em contradição anomalia. Ouço os estampidos com certa atenção. Desconheço armas e seus calibres. Vejo-as obrigatório e às vezes bem perto no polícia, pondo-me em atitudes de defesa, sobressaltos ou medos, como qualquer pessoa hoje na Cidade Maravilhosa*. Na lonjura, e um pouco longa lonjura, os estampidos chegam bem nítidos. Assim penso: o bicho tá pegando no Dezoito*. Aos poucos meus ouvidos evoluíram a ler melhor. Tiros de fuzil agora facilmente identificáveis, os de maior número. Pistolas em uso só em casos de proximidades ou apertos. Calibres 32 e 22 viraram obsoletos, daqui uns tempos brincadeiras de criança, quem sabe. Por vezes, na formação e história das batalhas, leio claramente não a arma mas o esplendor do estampido. Alguns, desses dias, me surgiram bem mais explosivos, com intensidades diferente das outras, marcadas. Nos tempos analfabetos, eu não sabia ainda nem o marque entre bombinhas de São joão e disparos mortais. No aprendizado das escolaridades da vida, passamos aos rápidos ou aos demorados, para um segundo e já avançado nível: entre bombinhas e tiros já sabíamos a diferença. Mas ainda assim, confundíamos ignorante fogos de artifício com explosões de guerra. Num momento de calmaria porém de muito medo guardado, eu e meu irmão fomos vítimas de risadas alheias, corremos brancos e arregalados de foguetes de festa ao meio do dia. A mim custou-me muito aprender algo: as séries. Pois os espaços entre os barulhos das armas e dos fogos são diferentes, distintos. Além do que, o som de explosão das armas são bem fechados, os de artifício abertos. Enfim já uma formação, nos ouvidos da guerra.
Na intensidade dos avanços ponho-me lá. Deu no jornal: helicóptero em rasantes sobre a Cidade De Deus*, despejou tiros e mais tiros em cima das casas e dos barracos, à noite. Acuadas e em proteção, as pessoas se malocavam aos buracos e escondidos como podiam. No instante, todos ali embaixo matáveis e inimigos.
Criado em pacatos vilarejos pobres e de roça, estou em contrário oposto de infância, ao de um menino ou menina crescendo na guerra; na incerteza hedionda e profunda de se amanhã estará em algum lugar, que não seja morto e num buraco no chão.
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Notas do autor:
Cidade maravilhosa, adjetivo, hoje já meio esquecido ou irônico, do Rio de Janeiro.
Dezoito, favela da Zona Norte no Rio.
Cidade de Deus, bairro popular.



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